domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Ameaça de Cumbre Vieja



Você provavelmente nunca ouviu falar de Cumbre Vieja.
E esperemos que continue assim.

Como eu escrevi em determinado trecho deste artigo, o povo dessa terra adora dizer que "Deus é brasileiro" porque nosso país não sofre com desastres naturais. Só que a gente sabe que esse pessoal tem memória MUITO curta para praticamente tudo, e com catástrofes não seria diferente.

Eu DUVIDO que algum de vocês vá se lembrar de João Acácio Pereira da Costa "luz vermelha", Sandro do Nascimento, Hildebrando Pascoal, Francisco de Assis Pereira "maníaco do parque", Paulinho Paiakan, Mateus da Costa Meira "atirador do shopping", Roberto Aparecido Alves Cardoso "champinha"... não veio ninguém na memória, admita. Vocês só se lembrarão de casos mais recentes, como o do casal Nardoni, Suzane von Richthofen, Wellington Menezes ou Lindemberg Alves, e mesmo assim olhe lá!
Tampouco vão lembrar de Yves Yoshiaki Ota, Liana Friedenbach, Gabrielli Cristina e João Hélio... novamente, casos atuais ou que ainda estão na mídia, como os de Eloá Pimentel e Isabela Nardoni, ainda poderão estar em suas cabeças. Mas não muito mais do que isso.

Se tragédias humanas, que acontecem a rodo todos os anos neste país, já temos a "incrível" capacidade de esquecer menos de 6 meses depois e até fazer piadinhas, o que dizer de catástrofes naturais?
Alguém ainda ouve falar sobre a tragédia na região serrana do Rio, a pouco mais de 01 ano? Ou sobre a enchente em Santa Catarina, igualmente recente? A seca no nordeste nem chama mais a atenção. Também posso apostar que nenhum de vocês sequer tem conhecimento da tragédia da Serra das Araras, de 1967, certo? Pois é...

Com relação a catástrofes naturais, temos alguns problemas com água, é verdade, mas nada comparado a um maremoto. Os grandes que aconteceram nos últimos tempos, como na Indonésia (2004), no Chile (2010) e no Japão (2011) ocorreram em outros oceanos que não o Atlântico ou seja, sem nenhuma possibilidade de nos atingir. E, de fato, não sentimos efeito algum destes acontecimentos. Contudo, não é apenas no Índico e no Pacífico que eles podem se manifestar. Os meios de comunicação querem nos fazer acreditar que vivemos num país tranquilo, mas esquece-se de dizer que outros países próximos não são tão tranquilos assim, e que desastres naturais não conhecem fronteiras.

A possibilidade de um maremoto em nossa costa nem sequer é cogitada, uma vez que o Brasil está cravado no meio da placa sul-americana, longe de qualquer fronteira que esta tenha com outras regiões tectônicas. Mas existe uma catástrofe, muito, MUITO mais destruidora do que nossas enchentes e deslizamentos, cuja probabilidade de acontecer é bem real e da qual já temos conhecimento, que é solenemente ignorada por todos – incluindo aí a mídia e o próprio governo: Cumbre Vieja.

Este é o arquipélago das Canárias... San Miguel de La Palma está à extrema esquerda.

Quem!? Um vulcão de 1.949m de altura situado na ilha de San Miguel de La Palma, no arquipélago das Canárias, território do reino da Espanha a pouco mais de 4.200km da costa nordeste do Brasil. Trata-se de um local de intensa atividade sísmica e com muitos vulcões ativos. A própria origem do arquipélago é vulcânica. Só na ilha em questão existem os vulcões Taburiente I e II, Bejenado, Teneguía, Cumbre Nueva e Cumbre Vieja. Nada menos que 06 vulcões numa ilha com pouco mais de 40km de comprimento.
Este último ainda encontra-se em atividade, com vários registros ao longo da história, mas o que o torna um problema foi que, durante sua última grande erupção em 1949, abriu-se uma enorme fratura na parte sudoeste da ilha que, em uma próxima explosão, pode se desprender e deslizar com tudo para dentro do Atlântico. Que isto vai acontecer já não se tem dúvidas. O único problema é descobrir quando. E é daí que vem a preocupação maior...

Isto porque calcula-se que o deslizamento faria cair no mar uma massa de terra de assustadores 500km3. Só para efeitos de comparação, o maior deslizamento de terra da era moderna, ocorrido durante a erupção do Santa Helena em 1980, moveu "apenas" 2,8 milhões de m3, ou 0,0028km3 de terra. Ou seja, Cumbre Vieja despejaria quase 180 mil vezes mais terra nas águas do Atlântico norte do que o maior volume deslocado já registrado na história.


Foto da Ilha de San Miguel de La Palma.
A seta mostra a localização do vulcão e
a linha contorna a área que poderia se
desprender durante a próxima erupção.
Qual o problema disso? Bom, uma porrada dessa no oceano seria similar ao impacto de um meteorito, fazendo um volume horroroso de água deslocar-se subitamente, principalmente em direção ao ocidente. Viajando pelo mar à velocidade de 800km/h, entre 06 e 07 horas ondas de até 60m atingirão o nordeste brasileiro, devastando todas as capitais litorâneas como São Luís, Fortaleza, Natal, João Pessoa e Recife. O interior também seria atingido, pois calcula-se que uma onda deste tamanho avançaria até 20km terra adentro, dependendo das condições de relevo.
Na América do Norte, os EUA serão o país que mais sofrerá com a chegada da onda, e todas as grandes cidades americanas da costa leste, como Nova York, Miami e a capital Washington serão severamente abaladas. Já o México seria protegido pelas Antilhas, mas ainda assim uma parte da onda conseguirá contorná-las e alcançar seu território causando danos significativos.


E não será apenas o Ocidente a sofrer. Conforme pode se ver nas ilustrações, a onda dará a volta na ilha e também irá em direção ao outro lado. E ao chegar na Europa, após viajar pouco até atingir seu litoral, paralelamente terá perdido pouca força no trajeto, e ficará mais alta do que em qualquer outro lugar: ao chegar à Lisboa poderá estar com até 900m de altura.

Erupção submarina do vulcão El Hierro, em outubro de 2011.
Catastrofismo? Medo infundado? Não. Isto tudo também pode nunca acontecer, mas há evidências de que, se acontecer, pode ser potencialmente catastrófico. É claro que a mera probabilidade da catástrofe hoje em dia é enormemente amplificada pela mídia, especialmente a americana. Lá um episódio do seriado CSI Miami em 2004 falava especificamente da chegara de um maremoto à Flórida causado pela erupção do Cumbre Vieja; no mesmo ano Patrick Robinston publicou uma novela de ficção na qual o deslizamento é provocado por terroristas muçulmanos; na Alemanha outra novela similar, Der Schwarm (O Quinto Dia), escrita por Frank Schätzing, trata do colapso de La Palma provocado por (hã!?) vermes marinhos; na Espanha também foi lançada uma novela, Volcano, de Richard Doyle, focando também a erupção do Cumbre Vieja... ou seja, estão dando um tom midiático à coisa que, ao mesmo tempo em que amplia a inquietudo com relação ao fato, o "ridiculariza" e o relega à mero fruto do alarmismo de alguns cientistas. Nada mais longe da verdade. É um perigo real, com evidências reais (muito diferente daquela bobagem de 2012) e sobre o qual deveriam haver medidas preventivas sendo planejadas o quanto antes.
Os EUA possuem sistemas de alerta contra maremotos, mas praticamente todos os países do caribe e da parte oriental da América Latina não. Os que têm litoral no Pacífico dependem quase totalmente do Sistem de Alerta de Maremotos do Pacífico, cuja sede fica no Havaí.

Mesmo que Cumbre Vieja não entre em erupção, esta pode ser desencadeada pela de outro vulcão próximo, El Hierro, que se encontra na ilha homônima a apenas 128km de distância ao sul e que, calcula-se, pode entrar em erupção muito em breve. Em outubro de 2011 houve um aumento considerável da atividade vulcânica no arquipélago. No dia 08 do mesmo mês, na ilha de El Hierro, ocorreu uma erupção submarina, 500m abaixo do nível do mar. Não trouxe perigo algum, exceto a possibilidade de se ativar outros vulcões nos arredores, dentre os quais... Cumbre Vieja.

As setas apontam para a polêmica fratura que pode fazer a ilha
deslizar numa próxima erupção.
Longe de ser alarmismo, o que eu quero evidenciar aqui é que a possibilidade existe e é bem mais real do que poderíamos imaginar inclusive algo bastante parecido já aconteceu: em 1888, um vulcão na ilha Ritter, na Papua Nova Guiné, sofreu exatamente o mesmo colapso esperado em La Palma, gerando ondas de 12 a 15 metros de altura que mataram 03 mil habitantes das áreas adjacentes. A diferença é que o desta última poderá ser até 500 vezes maior... e afetará diretamente 100 milhões de pessoas.
A grande questão, conforme já dito, é QUANDO vai acontecer. Pode ser daqui a 500 anos ou nos próximos 15 minutos, não há como saber. Não temos tecnologia suficiente para prever com tanta precisão. Estimativas de geólogos norte-americanos avaliam que o vulcão pode explodir entre 2013 e 2214; já o "vidente" brasileiro Jucelino Nóbrega da Luz afirma que um megamaremoto vai destruir a costa leste americana no final do ano que vem. Esse cara ganhou visibilidade por supostamente ter "previsto" os atentados terroristas de Nova York em 2001 e Madrid em 2004. Ai ai... (bocejos)



02 minutos após o deslizamento: a área de terra que se desprende e se esparrama pelo leito do Atlântico (em branco) é de 3.456km² e tem peso estimado em 500 bilhões de toneladas, caindo ao mar à velocidade de 350km/h. A onda (em vermelho) seguirá na mesma direção e se espalhará pelos lados. O deslizamento inteiro vai durar 10 minutos.

05 minutos após o deslizamento: conforme o material for se depositando no fundo do mar, o nível deste se elevará, e a água começará a se espalhar pelo oceano, seguindo principalmente na direção oeste.

15 minutos após o deslizamento: a maior parte da onda dirige-se para a América, mas uma parte dá a volta e atinge as ilhas de El Hierro e La Gomera.

30 minutos após o deslizamento: a onda atinge a ilha de Tenerife, e continua se dirigindo circularmente para todos os lados, com maior força para a América.

01 hora após o deslizamento: o maremoto atinge a ilha da Madeira e chega ao litoral da África, no Saara Ocidental.

03 horas após o deslizamento: o arquipélago dos Açores e a parte mais ocidental da Europa (Portugal e Espanha) já foram atingidos, enquanto a onda avança em direção à Inglaterra e está à meio caminho do continente americano.

06 horas após o deslizamento: todo o litoral norte da América do Sul - incluindo as cidades brasileiras de Belém, São Luís e Fortaleza - e a parte mais oriental das Antilhas serão atingidas pelo maremoto. Mais 01 hora e a onda chegará à costa dos EUA.

É isto que vai acontecer, caso a erupção do Cumbre Vieja leve ao colapso da ilha.
E se você é um daqueles interioranos que pensam "quem mora no litoral é riquinho e tem mais é que se foder", melhor mudar o raciocínio, seu idiota imbecil. Isto porque a foz do rio Amazonas mede quase 300km de largura e, mesmo com a ilha do Marajó servindo como barreira, o maremoto passará tranquilamente pelos lados e avançará para o interior. Com a largura média de 5km e correndo através de uma planície baixa, o rio pode muito bem servir como caminho, por onde essa onda gigante chegará quilômetros e quilômetros adentro do país, fazendo a pororoca parecer uma marolinha e atingindo até mesmo o distante pantanal matogrossense. Todas as planícies do país estão sob risco, e o Brasil é um país lotado de rios grandes e caudalosos, que formam planícies enormes e que se extendem quilômetros adentro de seu território.



Nunca havia ouvido falar nisso antes, não é mesmo? Pois é, mas este talvez seja um dos assuntos mais sérios deste início de Séc. XXI. O vulcão é considerado hoje como um dos maiores perigos naturais potenciais em todo o mundo. Uma das idéias propostas para evitar, ou ao menos minorar a catástrofe, seria a retirada artificial de terra do local, aos poucos, no decorrer de muitos anos. Seria uma operação muito demorada e MUITO cara, mas nada que se compare ao prejuízo que causaria um maremoto de 70m de altura chegando ao litoral norte-americano, fora o colossal número de mortos.

Links:


Para finalizar, mas ainda com relação a maremotos... o nome Lituya Bay te diz alguma coisa?

Provavelmente também não... mas foi nessa baía no Alaska que foi registrado o maior maremoto da História: 524 metros de altura. Se fica difícil visualizar, talvez a comparação abaixo ajude.

Apenas 2 metros abaixo da antena da torre mais alta do extinto World Trade Center...

Lembra do filme Impacto Profundo? Provavelmente os produtores se lembraram de Lituya Bay quando fizeram aquela onda colossal cair em cima do exatamente do... World Trade Center.
Felizmente, o evento ocorreu numa área isolada e fez apenas 02 vítimas fatais (pessoas que estavam num barco nas proximidades). A onda foi causada por um deslizamento de rochas e gelo que fez cair no mar 90 milhões de toneladas de material de uma só vez. Aliás, a Baía de Lituya tem um histórico de megamaremotos: outro que ocorreu lá tinha "apenas" 100m de altura...

sábado, 21 de janeiro de 2012

A Extinção da Humanidade: Catástrofes Naturais



Furacão Katrina em Nova Orleans, EUA (2005). O dia em que a maior potência econômica e militar do planeta ficou de joelhos ante a força da natureza.

Fala-se muito sobre impactos cósmicos, a mídia nos amedronta com filmes sobre meteoros e toda aquela viagem a respeito de 2012, mas uma causa bem possível para nossa aniquilação total está aqui mesmo, no nosso planeta e bem debaixo de nossos pés.

Tragédia de Armero, Colômbia (1985)
Vivemos num mundo extremamente hostil cujos seres vivos ou adaptam-se às suas atividades naturais (climáticas, geológicas e etc) ou morrem. A espécie humana não foge à essa regra e, mesmo sendo a forma de vida complexa mais versátil e adaptada a (quase) todos os ambientes terrestres, ainda é suscetível à esses fenômenos. Existem registros históricos de catástrofes que mataram centenas de milhares, às vezes milhões, de pessoas. E com o avanço da ciência, hoje também podemos prever (de novo, nada a ver com 2012) cataclismas potencialmente desastrosos para a humanidade e que, se não a extinguissem por completo, poderiam muito bem destruir nosso modo de vida e a civilização como a conhecemos hoje, recrudescendo-a a níveis primitivos.

Nem uma nova era glacial seria capaz de nos extinguir.
Todos os elementos naturais do planeta têm potencial destrutivo. Contudo, é pouco provável que um evento DA TERRA consiga nos exterminar completamente, e isso por dois motivos: 1) nossa quantidade e 2) nossa distribuição. Não existem terremotos mundiais, ou maremotos que consigam chegar até as partes mais altas e longe do mar do planeta, e furacões continentais e tempestades planetárias são coisas de Holywood. Aliás, com relação a isso, o filme O Dia Depois de Amanhã merece uma consideração interessante: embora ocorra num período de tempo absurdamente curto demais, mostra com algum grau de acerto o que aconteceria se a Terra mergulhasse numa nova era glacial extrema, como a 11 mil anos atrás.
Mas nem mesmo uma era glacial nos faria sumir totalmente do mapa. Os esquimós estão aí a milhares de anos demonstrando que somos perfeitamente capazes de viver sob as agruras de um mundo congelado.


Erupção do Merapi, Indonésia (2010).
Antes de mais nada, é sempre bom lembrar que estas catástrofes são, como o próprio nome diz, absolutamente NATURAIS. Diferentemente do que falam certas bestas autoridades religiosas, não são castigos divinos e nem sinais do que quer que seja. Se essas pessoas ainda conseguem convencer otários ingênuos hoje, com toda disponibilidade de informação que existe, imagine a centenas de anos atrás, o quão determinantes eram suas insanidades palavras!? Aliás, por que esses caras são chamados de "autoridades"? Seja como for, fenômenos naturais sempre aconteceram e sempre acontecerão. A diferença é que agora existe muito mais cobertura jornalística no planeta do que a 500 anos atrás, mas a frequência de tais eventos não aumentou em absolutamente nada. Então, não se preocupe: não é Deus avisando porra nenhuma, é apenas uma manifestação da natureza. Não leve a sério padres, pastores e outros imbecis religiosos que não entendem NADA do que estão falando. Aliás, como diria Epícuro, se Deus existisse ou se é de fato onipotente, evitaria tais tragédias mas nem vou entrar no mérito, senão já viu...

Maremoto de Sumatra, Indonésia (2004)
E existem regiões da Terra que são particularmente infelizes quando o assunto é desastre natural, e isso por N fatores, dentre os quais: condições de relevo, taxa pluviométrica, atividade tectônica, vulcanismo e (principalmente) capacidade logística e de organização e prevenção quanto à tais condições ou você consegue encontrar outro motivo para explicar como um Japão consegue resistir a terremotos, maremotos, vulcões e o escambau com um número mínimo de vítimas e se reconstruir em questão de dias e um Bangladesh da vida não?
Além disso, nesses lugares se morre muito mais gente por um motivo bastaaaante simples: muito mais gente mora lá, é ÓBVIO! Uma catástrofe na China vai matar muito mais gente do que em Pitcairn!


Inundação do rio Yangtze, China (1931).
Aliás, foi exatamente por isso que o maior desastre natural da história da humanidade aconteceu justamente na China. Em 1931, as INUNDAÇÕES dos rios Yangtze, Hwang Ho e Huai na região central do país afetaram quase 30 milhões de pessoas e mataram nada menos que 04 milhões delas.
Além da China, outros países sofrem com as agruras de uma enchente, como Holanda (sim, 1º mundo também não escapa!), Indonésia, Índia e aqui, no Brasil. Se você mora no Vale do Itajaí (SC) ou região serrana (RJ) sabe muito bem como é na própria pele.


Área alagada na grande inundação de 1931.
Voltando lá pra China, antes da enchente de 1931 teve outra, em 1887, na mesma região e que matou nada menos que 900 mil pessoas. E depois dela teve outra ainda, em 1939, quase no mesmo lugar e que levou 200 mil pessoas pro caixão. Todo ano a China sofre durante o verão com a combinação trágica de chuvas torrenciais + degelo do Himalaia. É algo natural contra o qual não há muito o que se fazer, a não ser se previnir. Ou fugir.
Em 2007, outra inundação (adivinhe onde!?) merece destaque, não pelo número de vítimas (só 700) mas por trazer um novo elemento à calamidade: ratos. As áreas atingidas foram invadidas por DOIS BILHÕES de roedores que, desentocados pela água, passaram a devorar tudo que encontravam pela frente. Houve registros até de vacas mortas por ratos.
Aquela inundação traz outro número impressionante: afetou nada menos do que 120 milhões de pessoas
10% da população chinesa. Ou seja: se for na China (ou Índia, Indonésia, Nigéria e outros com condições similares), vai morrer gente pacas... porque tem gente pacas lá.


É exatamente por isso que a combinação lugar de risco + população enorme e empobrecida sempre dá em merda. Como exemplo perfeito temos a península indiana, especificamente em sua porção oriental, ali juntinho com o já citado Bangladesh. O histórico de catástrofes ali é longo e terrível, olha só AQUI. Dos 30 ciclones mais destruidores de todos os tempos, 22 aconteceram ali, na Baía de Bengala.

Já que acabamos entrando no assunto, em se tratando de eventos atmosféricos nada assombra mais do que um FURACÃO. Na verdade este fenômeno atmosférico recebe diferentes nomes, conforme o local onde acontece: furacão no oceano Atlântico, ciclone no Índico e tufão no Pacífico. E foi no Índico que aconteceu o mortífero de todos os tempos, quando o ciclone Bhola matou nada menos que 500 mil pessoas no extinto Paquistão Oriental em 1970. A incompetência do governo no socorro às vítimas foi tamanha que indiretamente iniciou a guerra de independência que culminaria com a criação do atual Bangladesh.

Ciclone Nargis, em Myanmar (2005).
Mas existe algo importante que se faz necessário salientar aqui: o ciclone Bhola não foi nem de longe o mais forte a atingir a região (categoria 03 na escala Saffir-Simpson, que vai até 05). O que acarretou o massacre foi a combinação de pobreza, falta de um plano de contingência decente e SACANAGEM pura a Índia sabia que o ciclone estava chegando, mas não avisou o Paquistão Oriental porque tinha  (e ainda tem) rixinhas bichas com aquele país (agora apenas ocidental). Comparação interessante: o furacão Wilma, que se abateu sobre o Caribe em outubro de 2005, era de categoria máxima, 05, e levou apenas 36 pessoas à morte; o ciclone Ului, que atingiu a Austrália em março de 2010, também era da categoria 05 e sabe quantas pessoas matou diretamente? UMA.
Ou seja, mais determinante para a quantidade de vítimas não é a potência do furacão, mas o preparo da população pela qual ele passa. O último grande ciclone a assombrar o mundo foi o Nargis, que virou Myanmar do avesso em 2005, matando quase 140 mil pessoas e condenando os sobreviventes a um flagelo infernal em virtude da recusa da junta militar que governa o país em receber ajuda internacional. Ou seja, a natureza ajuda, mas a incapacidade e a filhadaputice humanas contribuem muito mais!


Mapa dos piores furacões e ciclones da história (clique para ampliar).

Além de eventos atmosféricos, a humanidade também é constantemente assolada por outro fenômeno natural, talvez o mais famoso: TERREMOTO.
Neste caso, seja onde for, se vier com força máxima o estrago e o número de vítimas é grande. Isso porque, ao contrário dos ciclones e furacões, terremotos são totalmente imprevisíveis. Conhecem-se zonas mais propícias, sim, mas dizer quando e com qual potência vão ocorrer ainda é um grande desafio.
O terremoto mais destruidor de todos os tempos foi o de Shaanxi, na China, em 23 de janeiro de 1556: varreu do mapa absurdas 830 mil pessoas. A China inclusive coleciona vários terremotos devastadores através dos tempos: o de 1976 fez quase 780 mil pessoas comerem grama pela raiz, e o de 1920 matou 235 mil. O problema aqui está (novamente) na dupla população + condições relembrando que a China é o país mais entupido de gente da face da Terra.
Mas ela não é a única: se a baía de Bengala é o local preferido dos ciclones mais devastadores, a região centro-sul da Ásia é um lugarzinho triste em se tratando de terra tremendo...
especialmente nas adjacências de Japão, China, Irã e Turquia. Dos 15 terremotos mais letais da história, apenas 03 não ocorreram por lá.

Mapa dos piores terremotos da história (clique para ampliar).

Terremoto em Lisboa, Portugal (1755).
Merece destaque o grande terremoto de Lisboa, que destruiu a capital portuguesa por completo e matou 100 mil pessoas. A coisa lá foi punk, algo sem prescendentes até então no mundo ocidental. Pra começar, o terremoto aconteceu no pior dia possível, o Dia de Todos os Santos, quando a maioria das casas estava cheia de velas acesas para "os santos". Com a destruição das mesmas, os escombros se incendiaram e a cidade inteira pegou fogo por dias a fio. O que não havia caído por causa do tremor, queimou por causa do fogo.
Antes disso, logo após o tremor os sobreviventes procuraram segurança na área aberta do porto, à beira do mar... péssima idéia. Um maremoto gigantesco arrastou-as para a morte. Não foi nem de longe um dos mais letais, mas a tragédia nunca antes vista teve um efeito profundo sobre a filosofia e a perspectiva intelectual da Europa. Geralmente atribuídas à ira de Deus, por que uma tragédia desse tamanho aconteceria justamente no Dia de Todos os Santos? Por que estes mesmos santos não intercederam em favor do povo lisboeta? Estariam esperando as homenagens primeiro? A Igreja ficou numa sinuca de bico para tentar explicar a catástrofe e, sem ter nenhum argumento decente (que novidade) continuou a fazer o que sempre fez e ainda faz: culpou as pessoas pelos seus pecados e disse que aquilo era um castigo dos céus. Já os filósofos da época começaram a contextar a linha de pensamento vigente
como Voltaire, que em seu Poème Sur Le Désastre de Lisbonne (Poema Sobre o Desastre de Lisboa) cita Epícuro, autor de um dos mais célebres textos iluministas de todos os tempos:

"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode; se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão não os impede?"
(Epícuro, 341-270 A/C)

Além de maravilhoso, tem lógica... não?

O dia seguinte (Haiti 2010). Cuidado!
O último terremoto a deixar o mundo de queixo caído foi o do Haiti em 2010 , um dos piores de todos os tempos em número de óbitos e justamente num dos países mais pobres do mundo, embora sequer tenha atingido a escala máxima de intensidade (magnitude 07). Por ser um país extremamente populoso e miserável, a tragédia atingiu proporções assombrosas. A capital do país foi arrasada, quase 320 mil pessoas morreram e mais de 01 milhão ficaram desabrigadas. Toda a infraestrutura do país foi destruída... enfim, uma desgraça total, o país literalmente acabou. E desde então precisa ser reconstruído quase do zero.
Só que passado 01 ano a situação, mesmo com toda ajuda internacional... continua igualzinha. Ainda hoje existem áreas totalmente cobertas de ruínas, com esqueletos aparecendo entre os entulhos e dezenas de milhares de pessoas vivendo em tendas improvisadas. É como se o terremoto tivesse acontecido a 05 dias. Mais uma vez o que se mede aqui é a capacidade que um país tem de se organizar e se recuperar de uma hecatombe natural, uma coisa que o Haiti obviamente não tem.

Essa imagem rodou o mundo logo após o terremoto do Haiti, e teve as mais variadas interpretações. Enquanto os religiosos exaltaram que Jesus manteve-se em pé, demonstrando que seu poder é muito maior que o da natureza, pessoas com neurônios rebateram afirmando que esse mesmo Jesus demonstrou ser um total incapaz de salvar quem quer que seja e ainda por cima é também um tremendo dum egoísta, por ter se preocupado mais em manter a própria estátua em pé enquanto o mundo desabava em cima das pessoas. Faça a sua escolha.

Mas o terremoto de Lisboa acrescentou um novo elemento em nossa lista... tem outra coisinha demoníaca que geralmente acompanha terremotos que se dão à beira ou dentro do mar... o MAREMOTO.

Pra quem não sabe é a mesma coisa que tsunami, mas eu tenho birra com essa palavra e me recuso a usá-la. Acho "maremoto" muito mais amedrontador e imponente do que "tsunami".
Maremotos podem ser causados por inúmeros fatores, como erupções vulcânicas, terremotos, deslizamentos de terra e até por bombas nucleares detonadas sob o mar. Nos últimos 10 anos tivemos pelo menos 03 grandes incidências de maremotos que chocaram o mundo. Indonésia 2004, Chile 2010 e Japão 2011. O primeiro foi particularmente traumático.


O dia seguinte (Indonésia 2004). Cuidado.
Por quê? Primeiro porque a Indonésia já é um país cagado com relação à desastres naturais, depois porque é o 4º país mais populoso do mundo, e também porque (em virtude deste último) foi a 6º mais letal catástrofe natural de todos os tempos. Mas além de tudo isso, este foi o primeiro grande maremoto da era digital, plenamente registrado e coberto pela imprensa internacional. O mundo inteiro se estarreceu com as imagens das ondas gigantes invadindo cidades totalmente desprotegidas, demolindo casas, carregando carros e pessoas para o fundo do mar, causadas por um terremoto submarino que ultrapassou os 9 pontos máximos da escala Richter. Nunca se conseguiu calcular com precisão o total de mortos, mas os números mais baixos chegam à casa dos 230 mil. Outro fato ímpar foi que o maremoto foi tão poderoso que, embora tenha ocorrido no litoral da ilha de Sumatra, viajou o oceano Índico inteiro e matou gente até na África. O mundo inteiro ficou de joelhos, houve uma série de debates sobre a imprevisibilidade do fenômeno, a incapacidade em se atender a população atingida num cataclisma dessa magnitude... em suma, a respeito da impotência da humanidade perante a força da natureza.

Trajetória do maremoto de 2004.
Mas aí a gente compara este maremoto de 2004 com o último grande, ano passado, no Japão. Não vou me ater muito a explicá-lo, você pode saber mais a respeito das causas e consequências desse episódio diretamente de alguém que mora lá na terra do sol nascente acessando o site do meu colega Nihil Lemos. O que vou salientar aqui é a capacidade invejavelmente maravilhosa que esse povo de lá tem de suportar uma porrada dessas sem cair! Troquei alguns e-mails com esse cara acima, perguntei-lhe a quantas anda a recuperação das áreas atingidas e olhem o que ele me falou a respeito (transcrito ipsis litteris):


"A passos largos. Mas a parte da região se limita a limpeza mesmo porque de acordo com uma pesquisa feita na TV mais da metade não quer voltar a morar perto do mar ou em áreas de baixas altitudes. E claro, a altura dos diques contra tsunami estão sendo revista e enquanto isso as usinas nucleares estão paralisadas para uma rigorosíssima avaliação (apenas uma voltou a funcionar). Mas ainda tem muita coisa para limpar e reconstruir. Isso fora os escombros ainda inacessíveis... O resto é o que você conhece, aquela estrada em Ibaraki que foi reconstruída em 6 dias, por exemplo. :) Lembro que já senti um terremoto forte onde eu moro e um pedaço de 40 metros da via-expressa que passa aqui desmoronou. Ela foi recuperada em 3 dias! A eficiência deles é assombrosa". (grifo meu)

Deslizamentos em Nova Friburgo, Brasil (2011).
Agora me respondam: como lá eles recuperam uma estrada em 03 dias e aqui a duplicação do trecho sul da BR-101 já se arrasta a mais de 15 anos sem nenhuma previsão de conclusão? Incompetência, incapacidade, burocracia e CORRUPÇÃO são as respostas. É só observar também, 01 ano depois, como estão as cidades atingidas pelos deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro: iguaizinhas. Inclusive com diversas denúncias de desvio de verbas por parte de ninguém menos que o próprio prefeito de Teresópolis (quando é rico ou político é "desvio"; quando é pobre é roubo mesmo). O Brasil pode até ser a alardeadíssima 6ª maior economia do planeta (grandes merdas), mas neste ponto se assemelha muito mais ao Haiti (135ª economia).
Nota: e esta nem foi a maior catástrofe natural da história do Brasil, conforme está sendo noticiado. As 916 pessoas mortas e outras 345 "desaparecidas" (outro nome para mortas) não se comparam às 1.700 vidas perdidas na Serra das Araras este sim o maior desastre do país em todos os tempos.

Maremoto em Otsuchi, Japão (2011).
Finalizando o assunto maremoto... brasileiro adora dizer que "Deus é brasileiro" alegando, entre outras coisas, que por aqui não ocorrem desastres naturais. Bom, brasileiro a gente sabe que em geral é um povinho com memória similar a de um procarionte e inteligência menor que a de um protista. É verdade que não temos muitas ocorrências de grandes desastres, mas recentemente nosso país teve seu primeiro terremoto com vítima fatal registrada, e nada impede que comecem a ocorrer outros. Nosso principal algoz natural são as chuvas, que todo ano causam alguma tragédia em algum ponto do país (especialmente Minas, Rio de Janeiro e Santa Catarina), mas até ciclone já houve por aqui também e olha que ciclones teoricamente são quase impossíveis de se acontecer no hemisfério Sul. Então, se aconteceu e justamente aqui no Brasil, é porque Deus deve tá começando a ficar puto com a inércia e alienação do brasileiro.




E isso porque nem falei ainda de Lituya Bay e/ou Cumbre Vieja... esse é pra te fazer borrar as calças, mas vamos deixá-lo para uma próxima.

Muito bem, querido leitor... fizemos uma viagem por quase todos os grandes desastres naturais que ocorrem no mundo. Existem vários outros sobre os quais não falei, como avalanches, chuvas intensas, ondas de calor, nevascas, as bizarras erupções límnicas, verneshots e aqueles que são provocados por eventos cósmicos (mas isso também é uma outra história), mas nenhum tem ou teve, até o momento força suficiente para exterminar TODA a espécie humana...

Só um.

Ciclone em Bangladesh (1991).
Apesar de tudo que já viu até agora, quando se fala em forças naturais poucas coisas podem ser comparadas aos VULCÕES. Os deixei por último propositalmente, até porque, dentro das muitas possibilidades naturais, uma em especial quase obteve êxito em nos exterminar do planeta, e foi justamente uma erupção vulcânica (continue lendo).
Com poder suficiente para destruir montanhas inteiras (e até criar outras), mesmo pequenos vulcões podem dar demonstrações inigualáveis de força e destruição.
De tempos em tempos vemos notícias a respeito de erupções vulcânicas em 2010 um vulcão de nome impronunciável, Eyjafjallajökull (foda-se pra falar isso!), na Islândia, ejetou tanta fumaça que parou o tráfego aéreo da Europa inteira, causando US$ 2,2 bilhões em prejuízos; em 2011 aqui na América do Sul o vulcão chileno Puyehue também parou o tráfego aéreo da região, emporcalhou ruas no Brasil (até aqui na minha cidade) e sua fumaça chegou a incomodar até na Austrália, do outro lado da Terra.

Mas ambos, apesar do incômodo e do prejuízo econômico, só encheram o saco mesmo, não foram destruidores e não mataram ninguém. Existem vulcões em erupção neste exato momento em diversas partes do mundo, mas nada que signifique perigo. No Havaí, o vulcão Kilauea está em erupção contínua desde 1983. O vulcão mais ativo do mundo é o Yasur, de Vanuatu, que está em erupção intermitente a... 111 anos.
Erupção vulcânica nem sempre significa explosão e destruição. A maioria se mantém entre VEI 01 e 02 (explicação no próximo parágrafo). Aliás, nada nos últimos 20 anos mostrou-se digno de medo.


Assim como existe a escala Richter para terremotos, a Fujita para tornados e a Saffir-Simpson para furacões, há algo similar para medir a potência de uma erupção vulcânica, o Índice de Explosividade Vulcânica, ou VEI (do inglês Volcanic Explosivity Index), que vai de 00 a 08.


A maioria dos vulcões que são notícia hoje são do nível 04, como os dois citados acima e tantos outros mundo afora. Outros são mais famosos do que realmente perigosos. O famosíssimo Vesúvio, que destruiu Pompéia no ano 79, era de nível 05, considerado cataclísmico, que já são extremamente raros apenas 166 nos últimos 10 mil anos, e a última a 31 (Monte Santa Helena, nos EUA, 1980). Felizmente, para nós, quanto mais poderosa a erupção, mais rara ela é: novamente levando-se em conta os últimos 10 mil anos, erupções VEI 06 ocorreram apenas 51 vezes; VEI 07 entre 05 e 07 e VEI 08... nenhuma.
Com relação à este último tipo, um total de 47 erupções, com idade variando do Ordoviciano ao Pleistoceno, foram identificados. Destas, 42 ocorreram nos últimos 36 milhões de anos. A mais recente foi a explosão do vulcão Taupo, a 26.500 anos, o que significa que não houve qualquer erupção similar durante o Holoceno (últimos 10 mil anos). E foi exatamente por isso que nossa espécie prosperou.
Foi exatamente neste período que a civilização como a conhecemos floresceu, dentro de uma relativa calmaria natural, tanto geológica quanto climática e/ou cósmica. Apesar de ainda sermos surpreendidos por vulcões de vez em quando, eles em nada se comparam ao que já aconteceu num passado (humanamente) remoto do planeta.


Erupção do Santa Helena, EUA (1980).
Hoje em dia é possível prever-se (ainda que com um grau pouco razoável) erupções vulcânicas. O Séc. XX, apesar de tranquilo no sentido da quantidade e potência de erupções, foi relativamente fraco em perdas humanas neste tipo de tragédia. As duas maiores foram o Monte Pelée na Martinica (29 mil) e Nevado del Ruiz na Colômbia (23 mil) e este último foi muito mais em virtude das avalanches de lama do que diretamente pela explosão do vulcão. Mesmo as maiores erupções mais recentes só geraram belos e assustadores espetáculos, mas não mataram tanta gente. A erupção do vulcão Santa Helena, em 1980, é famosa por ter sido bem documentada e ocorrer nos EUA (e também por ter sido o maior deslizamento de terra já registrado), mas não foi uma grande erupção (VEI 05) e foi tão monitorado que, quando explodiu, "só" matou 57 pessoas a maioria das quais ignorou os sinais de alerta e planos de evacuação.
Sobre o Monte Pelée, há uma história muito curiosa: a de Ludger Sylbaris, 01 dos 03 únicos a sobreviver à catástrofe que matou 30 mil pessoas... porque estava na prisão na noite da catástrofe. Mais detalhes AQUI.


Erupções VEI 06 são chamadas de colossais, e ocorreram apenas 22 nos últimos 02 mil anos e apenas 04 nos últimos 150 anos: Pinatubo 1991, Novarupta 1912, Santa Maria 1902 e a mais famosa de todas, Krakatoa 1883.

Concepção artística da erupção do Krakatoa vista do espaço.
O dia 26 de agosto de 1883 é chamado de "o dia em que o mundo explodiu", por causa da erupção do Krakatoa, na Indonésia. Foi a mais violenta erupção vulcânica que o homem moderno já testemunhou. Sua explosão foi simplesmente o barulho mais intenso já ouvido pela humanidade, e todas as pessoas que estavam a até 15km do vulcão tiveram seus tímpanos estourados e ficaram surdas. O barulho chegou a 5 mil km de distância  na ilha Rodrigues, na costa leste da África, as pessoas achavam que estava acontecendo uma batalha naval. O estrondo foi ouvido por 1/12 da população da Terra, o que, como já dito, torna a erupção do Krakatoa o evento mais barulhento de toda a História. As gravações dos barógrafos da época mostram que a onda de choque da explosão final reverberou pelo planeta durante 07 dias. Mas ainda tinha mais...

A quantidade de material piroclástico (ou lava, ou magma, como preferir) despejado no mar foi tão grande e tão veloz que criou um maremoto de 46m de altura. Cidades e vilas inteiras foram varridas. Este efeito colateral da catástrofe foi a principal causa de mortes daquele evento, que chegaram a 36,5 mil no total. O maremoto foi tão poderoso que chegou a ser medido na Inglaterra, no Havaí E ATÉ NO BRASIL! Ele percorreu todo o Índico, passou por baixo da África, viajou todo o Atlântico e veio dar aqui, a mais de 15 mil km de distância. Fraco e sem maiores efeitos, mas veio.

Cada faixa preta compreende 1 hora de intervalo, o que significa que o maremoto chegou até aqui 20 horas após ter saído de Krakatoa.
Só que a destruição direta não foi o único problema... além de lava, todo vulcão também ejeta fumaça à atmosfera. E foi a quantidade dessa que resfriou o planeta em 1,2°C no ano seguinte, e a temperatura da Terra não voltou ao normal durante 5 anos. Neste tempo, o próprio céu ficou mais escuro, e o crepúsculo era de vermelho vivo.

Céu vermelho em Hong-Kong, 1 ano após a explosão do vulcão  
Pinatubo, nas Filipinas, em 1991. Tal efeito é uma característica  
típica após grandes erupções, e pode perdurar por vários meses  
ou até mesmo anos.
Apesar de tudo isso... a erupção trouxe efeitos benéficos para a região. A explosão destruiu várias vilas e esvaziou enormes áreas, que jamais foram repovoadas até hoje, dando espaço para que a floresta as recuperasse. O solo vulcânico é incrivelmente rico em nutrientes e propicia condições extremamente favoráveis ao reaparecimento de plantas e animais.

Na verdade, o Krakatoa sempre deu seus xiliques ali na região. Para se ter uma ideia de sua capacidade de destruição, de acordo com Chaves David, do The Independent, as ilhas de Java e Sumatra eram uma só até o ano 535, quando uma erupção devastadora as separou.
E que ninguém ache que o monstro tá morto não... nos anos 1920, na caldeira marinha resultante da explosão, começou a nascer outro vulcão, chamado Anak Krakatau (filho de Krakatoa, na língua indonésia), e que hoje já está com mais de 300 metros de altura.

Ele está constantemente em erupção e continuamente crescendo. Ninguém sabe quando... mas um dia o Krakatoa vai explodir de novo.
A erupção VEI 06 mais recente ocorreu em 1991, quando o monte Pinatubo explodiu nas Filipinas. Apesar de colossal, "apenas" 800 pessoas morreram. Pode parecer muito, mas os programas de monitoramento e o serviço de evacuação não tivessem agido seriam várias dezenas de milhares a perder a vida.

Erupção do Pinatubo, Filipinas (1991).
A última erupção de nível 07 foi a do monte Tambora, na Indonésia, em abril de 1815. A do Krakatoa, quase 70 anos mais tarde, foi mais bem registrada em virtude da própria tecnologia já disponível (como o barógrafo, criado em 1846). Contudo, em se tratando de perdas humanas, Tambora foi a pior erupção vulcânica da História: 92 mil mortes, quase o triplo de Krakatoa. Além disso, foi responsável pelo chamado "ano sem verão" na Europa ocidental: a fumaça liberada pelo vulcão mergulhou o planeta num inverno vulcânico que diminuiu a temperatura da Terra em aprox. 0,5ºC, arrasando a agricultura por todo o globo e causando a pior crise de fome do Séc. XIX. Numa reação em cadeia catastrófica, a fome enfraqueceu a população, o que levou a uma epidemia de tifo que devastou a Europa na mesma época. Indiretamente, mas ainda em consequência de seus efeitos, o Tambora matou por volta de 300 mil pessoas (dentre os quais 100 mil irlandeses).
E este vulcão ainda é considerado perigosíssimo, e dá muitos sinais de que, a qualquer hora, pode explodir de novo.

Aliás, a Indonésia é um país pródigo em grandes erupções vulcânicas: Krakatoa, Tambora, Merapi e Toba (grave bem esse último).

Não deve ser fácil dormir tranquilo num país com quase 70 vulcões...

O 8º nível é chamado de "mega-colossal" e tais erupções são bastante raras: existem registros seguros de apenas 1 dezena delas, e a última foi a quase 27  mil anos, quando o vulcão Taupo explodiu na Nova Zelândia.

Ao longo da história da humanidade, erupções vulcânicas foram responsáveis por inúmeras crises humanitárias:
  • em 1626 A/C o vulcão Thera provocou diversos distúrbios climáticos nos anos seguintes;
  • em 1200 A/C o vulcão Hekla colaborou para o histórico colapso da Idade do Bronze;
  • em 535 o Krakatoa (olha ele aí de novo) provocou mudanças climáticas terríveis no ano seguinte;
  • em 1600 o vulcão Huaynaputina, no Peru, fez aquele ser o ano mais frio no Hemisfério Norte em 600 anos, causando a grande fome russa de 1601;
  • em 1783 o vulcão Laki, na Islândia, causou milhares de mortes na parte continental da Europa;

Mas nada disso se compara com o que vem a seguir... a ÚNICA vez em que uma catástrofe natural conseguiu realmente quase destruir a espécie humana.

Deixei os vulcões por último por um motivo. Foi um deles o agente natural que mais se aproximou de nos exterminar totalmente da face da Terra. Você provavelmente nunca ouviu falar na erupção mega-colossal de Toba, correto?
Imagine um mundo com apenas 2 mil pessoas. Pois isto já aconteceu, a 71 mil anos atrás, graças a um vulcão situado na ilha indonésia de Sumatra, chamado Toba. Sua erupção foi a maior dos últimos 2 milhões e uma das maiores dos últimos 450 milhões de anos.

A erupção de Toba. O fim da humanidade nunca esteve tão
próximo quanto naquele momento.
Só para efeitos de comparação, quem tem mais de 30 anos vai se lembrar da 2ª erupção mais violenta do Séc. XX, a do já citado Pinatubo, em 1991 nas Filipinas. Na ocasião, aquele vulcão ejetou 10 km³ de magma e despejou algo em torno de 20 milhões de toneladas de aerossóis na atmosfera, o que reduziu em até 10% a quantidade de luz solar que chegava ao planeta e resfriou a temperatura global em 0,6ºC. Este mesmo material disperso na alta atmosfera formou uma camada de dióxido de enxofre que encobriu o mundo inteiro e acelerou o processo de destruição da camada de ozônio, fazendo com que aquele famoso buraco sobre a Antártida obtivesse sua maior expansão logo no ano seguinte. E olha que essa erupção vulcânica atingiu nível 06 (colossal) no VEI. Assustador, não?

Hoje Toba é apenas um grande e belo lago...
Mas a explosão de Toba foi VEI 08 (mega-colossal), ejetou assombrosos 2.800 km³ e resfriou o mundo em absurdos 12ºC, resultado direto das inacreditáveis 06 BILHÕES de toneladas de gases tóxicos que foram liberadas para a atmosfera. A quantidade de cinzas foi tão grotesca que cobriu a Índia, o Paquistão e a região do Golfo Pérsico com uma camada de 1 a 5m de espessura. As cinzas de Toba podem ser encontradas até hoje sob o gelo da Groenlândia. A quantidade de material solto na atmosfera foi tamanha que potencializou a última era glacial, conhecida como Würms, que já estava em andamento.
A explosão inimaginavelmente gigantesca liberou algo em torno de 7.700.000.000.000 ou 7,7 trilhões TRILHÕES!!! de toneladas (ou 670 km³) de magma. Isso equivale, em termos de massa, a quase 20 milhões MILHÕES!!! de edifícios Empire State Building.

Mas o que aconteceu naquele tempo? Para um vulcão causar alterações climáticas a níveis globais, sua coluna de fumaça precisa chegar a 15km de altura. A explosão de Toba alcançou o dobro disso. Em questão de dias o mundo inteiro sofreu os efeitos.
Com a fumaça encobrindo o planeta, as temperaturas caíram a um ponto em que iniciou um frio mundial intenso e propiciou a formação de geleiras. Numa terrível reação em cadeia, o nível do mar caiu, deixando à mostra uma paisagem de sal exposta que poderia ser facilmente varrida pelo vento. Amostras do solo dispersado podem ser encontradas nas geleiras da Groenlândia, demonstrando que devem ter havido tempestades de areia de proporções planetárias por dias a fio, matando plantas e privando humanos e animais de fontes de alimento.

Lago Toba visto do espaço.
Para o ser humano, o fim nunca esteve mais perto. As pesquisas mais otimistas a respeito sugerem que tenham sobrevivido, no máximo, 10 mil pessoas. Outras afirmam que tenham restado entre 2 e 4 mil, sendo que o número de mulheres pode ter chegado a míseras 500. Durante séculos e mais séculos, cada geração de Homo sapiens poderia, com muita facilidade, ter sido a última. Foram necessários 20 mil anos para sua recuperação satisfatória.
Mas que pesquisas são essas? Bom, evidências de uma crise populacional existem em cada um de nós, em nosso DNA. A variação genética entre todos os seres humanos, desde o zulu africano até o germânico europeu, é ínfima (se Hitler soubesse disso a uns 80 anos atrás...) o que só pode ser explicado sugerindo um número incrivelmente reduzido de indivíduos em algum ponto de nosso passado. Embora outros estudos tivessem confirmado a baixa variância e a fixado em algum ponto a 70 mil anos, não se sabia ainda seu motivo. Contudo, depósitos de cinzas e fragmentos rochosos forneceram evidências de uma catástrofe mundial a exatamente 71 mil anos – a mesma época da erupção de Toba. Coincidência?

Erupções mega-colossais desse tipo são de tal magnitude que podem separar eras geológicas inteiras e redefinir totalmente a vida na Terra. Foi uma sequência dessas na região russa da Sibéria, a 250 milhões de anos atrás, que causou a maior extinção em massa da história do mundo e serve como divisão entre os períodos Permiano e Triássico. Nesse cataclisma jamais igualado, nada menos que 96% de todas as espécies vivas foram aniquiladas. A mais famosa extinção de todas, a dos dinossauros, sugere um impacto cósmico, mas existem boas teorias afirmando que na verdade, foi uma sequência de erupções titânicas no que é hoje o planalto de Deccan, na Índia, a maior responsável pelo extermínio total dos répteis gigantes. Outras linhas de raciocínio ainda incluem liberações abruptas de metano aprisionado no leito oceânico da época e alterações das correntes marinhas (algo como as erupções límnicas, só que em escala continental).
Quaisquer que tenham sido as causas dessas megaextinções, elas forçosamente criaram uma condição climática tão hostil que delinearam uma linha divisória biológica que apenas uma minoria conseguiu ultrapassar e dar origem a tudo que está vivo hoje
– o que te inclui.
Esse tipo de catástrofe pode ser raro... mas acontece. Geologicamente falando, 100 mil anos é um período incrivelmente desprezível. Tudo isso pode mudar com uma erupção mega-colossal que pode acontecer a qualquer momento.

Toba fez um estrago sem igual em nossa espécie, e quase nos destruiu por completo, mas uma coisa "boa" nesses supervulcões é que todos eles atualmente estão extintos...

Menos um.

O Parque Nacional de Yellowstone está bem no meio da boca do
supervulcão mais poderoso do planeta. Os lagos de água fervente
escondem, na verdade, um monstro que está alguns quilômetros
abaixo e que pode explodir a qualquer nomento.
No noroeste dos EUA existe um complexo vulcânico que abriga nada menos que 04 dos 10 supervulcões conhecidos no mundo: o Parque Nacional de Yellowstone.
Todo o parque na verdade é uma imensa caldeira de um vulcão megalomaniacamente gigantesco e altamente ativo. Sempre lotado de turistas que vão pra lá ver jatos d'água fervente jorrando da terra (por causa do magma lá embaixo) e achá-los lindos, a maioria nem deve entender o que acontece ali... e muito menos o que pode vir a acontecer.
O pior de tudo é que a atividade da região tem aumentado significativamente nos últimos anos: o piso do solo cresce 3cm por ano o ritmo mais alto desde que as medições começaram, na década de 1920. Se uma erupção como as que já aconteceram lá ocorrer agora, cobrirá 2/3 dos EUA com uma camada de até 3m de cinzas a até 1000km de distância do vulcão.
Na verdade, o meio-oeste dos EUA é quase inteiramente um complexo de supervulcões: Island Park, La Garita, San Juan, Platoro, Nelson, Creede... todos esses adormecidos, e provavelmente extintos.


Esta foi a área coberta por lava na última erupção do Yellowstone,
a 640 mil anos atrás. E é a mesma área que poderia ser encoberta
caso o vulcão explodisse novamente hoje (o ponto vermelho marca
o local da caldeira).
Fuck the yankees!!! Vai ter muito idiota pensando isso... como disse, serão idiotas: os efeitos de uma erupção dessa magnitude serão mundiais, e não serão só os americanos a se ferrarem nessa. O mundo inteiro vai sentir os efeitos, e o pior: quer queira quer não, os EUA ainda são o centro do mundo e um impacto desses os forçaria a tomar medidas que seriam ruins para o mundo inteiro inclusive para quem os odeia tanto. E aí, com depressão econômica e caos social mundial, todo aquele discursinho velho, ultrapassado e CHATO de "eu odeio os EUA, a Globo, a Veja e o capitalismo" iria por terra rapidinho. Isto poderia atrasar o progresso da civilização humana talvez por até 01 década.

Yellowstone já deu sinais de seu poder de destruição num passado remoto. Calcula-se que ele entre em atividade a cada 600 mil anos, e sua última grande erupção se deu a 640 mil, ou seja... já passou da hora.

O perigo é BEM real.



O artigo ficou tão imenso quanto a lista de lins! Mas quem gosta do assunto ou ao menos ficou com as calças borradas vai achá-los bastante interessantes:


E pra finalizar...



Este é um mapa com todas as maiores catástrofes naturais registradas na história humana e mais algumas em potencial (veja a legenda). Perceba que o Brasil é de fato privilegiado nesse sentido, sofrendo apenas com as chuvas em determinadas épocas e regiões. Mas embora o país não seja assolado pelas forças da natureza, tem uma coisa muito pior que qualquer vulcão ou terremoto: POLÍTICOS!