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terça-feira, 15 de maio de 2012

A Extinção da Humanidade - Eventos Cósmicos



Dando sequência às possibilidades de extinção da espécie humana, vamos falar hoje das chances cósmicas disto acontecer.
Você já viu que podemos ser exterminados em virtude de doenças ou da própria força da natureza, mas nossa destruição também pode vir do espaço, embora, mesmo com as várias possibilidades que veremos aqui, as chances sejam bastante remotas.

E por que são remotas? Por causa da própria vastidão do cosmo. A Terra é apenas 01 planeta, "especial" apenas e unicamente pelo fato de ter sido capaz de gerar vida, nada além. Já sabemos que existem centenas de planetas extra-solares, inclusive alguns com características físicas similares às do nosso, e que podem ser tão especiais quanto ele. Já o universo é um gigante com mais de 01 octilhão de quilômetros! E isso se tratando apenas de sua parte observável! É como se nosso planeta fosse uma ameba isolada suspensa no meio do Sistema Solar. Atente também para o fato de que este número fica cada vez maior, uma vez que o cosmo está aumentando continuamente de tamanho. Depois do sol, a estrela mais próxima é Próxima (o nome é esse mesmo), da constelação do Centauro, que está a mais de 39 trilhões de quilômetros daqui – ou 04 anos viajando à velocidade da luz. Existem fenômenos cósmicos destruidores ocorrendo em todo o universo a todo instante, mas a Terra encontra-se num lugarzinho relativamente sem graça (ainda bem!) da Via Láctea, a nossa galáxia. Nada de muito cataclísmico acontece por aqui. Então tais possibilidades não são impossíveis, mas altamente improváveis.

Todavia, porém, outrossim, contudo e entretanto,  há um outro lado nessa história. Aqui também temos de considerar que, ao mesmo tempo em que tais eventos são raros, destes dificilmente conseguiríamos sobreviver. Isto porque tais acontecimentos são tão monumentais quanto o próprio universo. A mais conhecida de todas as catástrofes cósmicas é o impacto de meteoros. Mas também temos de considerar cometas, outros planetas e até mesmo galáxias inteiras, além de explosões de supernovas, emissões de raios gama e até mesmo daquele que jamais suspeitaríamos (continue lendo)... tudo isso se torna medonhamente colossal quando colocado sob nosso ponto de vista. Então, é muito difícil que alguma delas ocorra aqui pelas proximidades mas, se ocorrer... cara, danô-se! TODA a vida na Terra seria potencialmente aniquilada, e não apenas a humanidade, como no caso de uma epidemia ou de uma catástrofe natural global.

E já que a mais famosa é a COLISÃO POR CORPOS CELESTES, por que não começamos por ela?

Concepção artística do cometa Shoemaker-Levy 09 em rota de
colisão com Júpiter, em julho de 1994.
Aqui (felizmente), temos de novo uma relação inversa: quanto maior o meteoro, menor sua chance de nos atingir. O que não significa que não possa acontecer, ou mesmo que só aconteça muito longe de nós. Em 1994 a humanidade pôde pela primeira vez testemunhar em tempo real o choque de um cometa... em Júpiter. Na verdade, eram diversos fragmentos de um mesmo cometa, chamado Shoemaker-Levy 09. A energia liberada quando o maior deles acertou o planetão com tudo foi estimada em aproximadamente 06 milhões de megatoneladas de TNT (as assustadoras bombas soviéticas tsar, em teoria, liberam "míseras" 100 megatoneladas 60 mil vezes menos), e abriu um rombo maior que a Terra em sua superfície. Uma pancada dessas por aqui arrasaria a vida do nosso planeta. E se você acha Júpiter um planeta tão longe assim saiba que, em termos cósmicos, ele está logo ali, na cabeceira do outro lado do sofá.


Impacto KT marca o fim do período Cretáceo – e dos dinossauros.
Meteoros "grandes" (em dimensão humana) caem na Terra todos os anos, só que geralmente explodem e se vaporizam na alta atmosfera, não chegando a tocar o chão. A colisão mais famosa (mas não a maior) da história do nosso planeta se chama impacto KT, e ocorreu a 65 milhões de anos atrás, no que é hoje o território do México. Foi essa bordoada que terminou de exterminar os dinossauros e abriu caminho para a (r)evolução dos mamíferos, que (infelizmente) culminaria com nosso surgimento.
Calcula-se que o asteróide que se espatifou contra a Terra na ocasião tinha algo em torno de 10/14km de comprimento (quando tocou o solo sua parte oposta ainda estava na estratosfera), mas abriu um rombo quase 20 vezes maior na crosta terrestre. Para se ter uma idéia de seu poder de destruição, se todas as armas do planeta fossem ativadas simultaneamente o impacto KT ainda seria 1 milhão de vezes mais poderoso. Seu tamanho parecer pequeno comparado ao planeta, mas lembre-se que uma bala de revólver também é pequena em relação ao seu corpo.
Este impacto foi tão importante para a história da vida na Terra que finalizou a Era Mesozóica e deu início à atual Cenozóica.

Se ainda está pensando que tais colisões só ocorreram longe ou a milhões de anos atrás, é porque nunca ouviu falar de Tunguska.

Às 07:17h da manhã de 30 de junho de 1908 uma explosão colossal ocorreu a 6km de altura nos céus da Rússia, na região conhecida como Tunguska, na Sibéria. Este episódio ficou conhecido como "evento de Tunguska" e nunca se conseguiu determinar qual foi sua causa. Cometa, asteróide, até mesmo especulações sobre um possível buraco negro foram propostas – embora nada tenha sido relatado do outro lado do mundo, onde ele supostamente teria "saído". E claro, como sempre, teve os que falaram nos onipresentes discos voadores. O mais provável, entretanto, é que tenha sido um asteróide "grande" que, com o atrito contra nossa atmosfera, explodiu, gerando ondas de choque que reverberaram violentamente contra o solo siberiano. O mais espantoso é que o objeto não devia ter mais do que 20 ou 30 metros – o comprimento médio de um lote de terreno. Mas, mesmo tendo sido desintegrado a aprox. 10km de altura, foi o responsável pela derrubada de quase 80 milhões de árvores em terra. O que quer que tenha entrado na atmosfera e explodido lá em cima, o evento de Tunguska é considerado o impacto cósmico mais significativo da história recente.

Assim como existe o índice VEI para medir a potência dos vulcões (lembra?), há algo similar para medir a probabilidade de colisão de um meteoro com a Terra. É a chamada Escala de Torino, que está representada abaixo e como eu sei que você não vai entender porra nenhuma mesmo, a explicação tá na legenda.

00 - chance inexistente de colisão
01 - chance extremamente improvável de colisão
02 - ameaça mínima mas merecedora de atenção
03 - ameaça pequena capaz de devastação local

04 - ameaça pequena capaz de devastação regional
05 - ameaça média mas incerta
06 - ameaça séria mas incerta
07 - ameaça muito séria e quase confirmada
08 - destruição local confirmada (até 01 milhão de anos)
09 - destruição regional confirmada (até 10 milhões de anos)
10 - catástrofe mundial confirmada (até 100 milhões de anos)


Até hoje, o meteoro que mais longe conseguiu chegar nesta escala foi o 99942-Apophis. Durante algum tempo, ele foi a principal encheção de saco dos alardeadores de fim de mundo e profetas do apocalipse devido à uma pequena possibilidade real de impacto com a Terra em 2029 (que depois foi postergada pra 2036, 2043...). Em virtude disso conseguiu alcançar, num primeiro momento, o nível 04 da escala. De fato, se nos atingisse, a porrada ia ser séria, mas hoje ele não bota medo em quase mais ninguém e se encontra entre os valores 00 e 01.
Só que ele não é o único. Com o avanço da tecnologia de observação, outros asteróides já foram identificados como prováveis causadores de problemas aqui pra gente, como o 2011-AG5. Enfim, devem existir centenas, milhares de potenciais ameaças que ainda serão descobertas.

Mas é possível defender-se de um impacto cósmico, seja de meteoro ou cometa? EM TEORIA, sim.
Calcular sua velocidade e seu ângulo no momento do impacto é essencial para avaliar a intensidade de seus danos. Mas para saber como destruí-lo é necessário conhecer O QUE é que está vindo. Mesmo asteróides possuem uma variedade de composição, densidade e outros fatores que podem ser decisivos no sucesso de sua destruição:

  • objetos porosos se dividiriam em pedaços ainda grandes demais se fossem explodidos;
  • objetos rochosos não sofreriam danos significativos e produziria muitos estilhaços perigosos;
  • objetos ferrosos não produziriam estilhaços... porque não sofreriam dano algum. Seriam o pior tipo.

Ou seja: não vá na onda de Impacto Profundo ou Armageddon não, porque se na teoria até temos uma infinitesimalmente pequena chance de sucesso, na prática...

Asteróides são potencialmente perigosos, mas cometas são ainda piores, porque não têm rota definida.
Como assim? Esses corpos celestes nada mais são do que grandes blocões de gelo, e conforme se aproximam do sol, podem começar a derreter em virtude do calor. Mas, diferentemente do que ocorre na Terra, no espaço o gelo não vira água: se transforma diretamente em vapor, que pode ser disparado em fortes jatos a partir do núcleo, e é aí que se tornam realmente perigosos. Um desses jatos pode simplesmente fazer o bólido mudar de direção... e vir de encontro à Terra. Enquanto centenas de meteoros já tem suas rotas conhecidas e calculadas por várias décadas no futuro, com um cometa isso simplesmente não pode ser feito.

E se você acha que meteoros ou cometas são as piores coisas que poderiam se estabacar sobre nosso planeta, o que pensaria se soubesse que outros planetas também podem fazê-lo?

Pois isto já aconteceu. E com a Terra.

The Big Splash: e assim nasceu a Lua...
Quando você olha o céu numa noite sem nuvens, a Lua é o elemento dominante. Além de ser romântica, ela é também uma evidência da maior pancada que o nosso planeta já tomou, um evento conhecido como Big SplashSegundo essa teoria, a Terra levou uma trombada porradalhôncica a 4,5 bilhões de anos de um outro planeta, do tamanho de Marte e cujo nome era Theia. O impacto foi tão forte que deslocou o eixo da Terra para sempre, acelerou sua rotação e arrancou grande parte de sua crosta, lançando-a ao espaço (enquanto Theia simplesmente pulverizou-se). A vida só não foi completamente destruída porque a Terra naquela época... não tinha vida. Mas os destroços de ambos lançados ao espaço acabaram por se agregar num único bloco... e se tornaram a Lua. As evidências são bastante significativas: a Lua tem basicamente a mesma composição que o nosso planeta.
E se tudo isso comprovadamente já aconteceu em algum momento da história da Terra... pode muito bem acontecer de novo, com qualquer uma das alternativas.
Inclusive tem abobalhado se aproveitando disso e da tal teoria maia de que o mundo vai acabar em dezembro próximo para promover a idéia de colisão planetária. Uns falam no tal Nibiru, outros em Hercólubus, mas todos só estão enchendo o saco. Ou são idiotas mesmo.

Via Láctea e Andrômeda vão se esbarrar no futuro.
Aliás, nossa própria galáxia, Via Láctea, está em rota de colisão com uma outra, Andrômeda, que neste momento está a 2,6 milhões de anos-luz de distância. Ambas se aproximam à velocidade de 100/140km/s, o que dá aprox. 400 anos-luz a cada milhão de anos. Neste caso, é improvável que aconteça qualquer coisa ao nosso planeta, pois embora pareçam uma núvem de poeira dispersa (e não estão muito longe disso), cada "grão" dessa poeira está tão longe dos outros que o mais provável é que uma galáxia passe por dentro da outra sem colidir em absolutamente ponto algum, ou então se fundam numa única galáxia gigantesca. Isto deve acontecer em torno de 4,5 bilhões de anos no futuro e você vai ver que antes disso nosso planeta com toda certeza VAI ser destruído.

Mas já falamos muito de impactos cósmicos. Existem várias outras catástrofes vindas do espaço que devemos levar em consideração, por mais pífias que sejam suas chances de acontecer. As estrelas, tão brilhantes e distantes, na verdade possuem um arsenal de ameaças à vida. Quase todas as possibilidades cósmicas de ameaça à vida na Terra estão relacionadas a elas, e mesmo "mortas" podem incomodar muito. Mas de novo, para nossa sorte a grande maioria está longe demais para representar uma ameaça séria, mas isso não significa que elas não aconteçam o tempo todo, ou mesmo que uma dessas não possa nos causar danos realmente sérios. Na verdade, de tempos em tempos efeitos de reações estelares causam algum rebuliço aqui na Terra, mas geralmente só "matam" mesmo nossos equipamentos elétricos e eletrônicos. Um exemplo não tão raro de ameaça assim são as chamadas EMISSÕES DE RAIOS GAMA.

Estrela de nêutrons: ameaça à vida em qualquer lugar do universo.
Uma demonstração do perigo de uma emissão desse tipo tivemos em 27 de dezembro de 2004, quando um pulso colossal ocorreu em nossa galáxia, a 50 mil anos-luz de distância, na estrela de nêutrons conhecida como SGR-1806-20, situada na constelação do Sagitário. Traduzindo isto em quilômetros vira um número tão assustador que sequer dá pra nomear direito, mas lá vai: 4,73036524 × 1017 (é como se fosse aquele número inicial ali seguido de 17 zeros, ou 47 septilhões, trezentos e três  sextilhões, seiscentos e cinquenta e dois quintilhões e quatrocentos quatrilhões de quilômetros... ufa!). Mesmo assim, foi o suficiente para brilhar mais que a Lua no céu noturno por um breve momento e bagunçar a ionosfera do nosso planeta. O mais impressionante é que, dado o tamanho do universo, isso representaria uma explosão ali fora, no nosso quintal. Se fosse no nosso quarto, estaríamos em sérios apuros uma dessas mais próxima lançaria radiação suficiente para destruir nossa camada protetora de ozônio e expor todos os seres vivos deste planeta a doses letais de radiação. Talvez somente algumas bactérias, como a da figura abaixo, sobreviveriam, e a vida teria de recomeçar pelos procariontes como a 3,5 bilhões de anos. Felizmente, para nós, não existe nenhuma estrela de nêutrons desse tipo (conhecidas como magnetares) nos arredores do sistema solar. Pelo menos, não que tenhamos identificado...

Deinococcus radiodurans, um dos únicos organismos da Terra
capaz de sobreviver a uma emissão direta de raios gama.


Além das emissões de raios gama, há outros problemas com elas dignos de medo: um deles são as SUPERNOVAS.

Elas se formam quando estrelas massivas demais explodem, e são os fenômenos cósmicos mais poderosos conhecidos, capazes de brilhar mais que sua própria galáxia inteira cheia de estrelas no momento em que explodem.
Eta Carinae: o mais próximo que vamos chegar de uma supernova.
Para nossa sorte, uma detonação estelar dessas só poderia ser uma ameaça preocupante à Terra se ocorresse a até 30 anos-luz de distância. Só que já temos um bom conhecimento a respeito de tudo que está entre nós até esta distância, e não há estrela alguma nesta faixa que esteja "próxima" de explodir. Além desse horizonte existem sim algumas candidatas a supernovas, mas tudo que fariam a nosso planeta seria brilhar tanto, mas tanto, que deixariam a Terra sem noite por, talvez, até 01 mês inteiro.

É isto que aconteceria se alguma estrela
massiva próxima explodisse: queimaríamos!
Dentre estas candidatas, duas são bastante possíveis de se tornarem realidade. Uma é Eta Carinae, da constelação da Quilha, distante 7.500 anos-luz de nós. A uma distância dessas, não representa perigo algum para nosso planeta, uma vez que a maior parte da energia, radiação e raios gama provenientes da explosão seriam absorvidos pelo espaço. Ainda assim, seria uma detonação tão monumentalmente grande que traria até aqui um brilho 10 vezes mais intenso que o da Lua no céu.
A outra já é mais preocupante... T-Pyxidis, da constelação da Bússola. Sua distância é 3.260 anos-luz, quase 03 vezes mais perto que Eta Carinae. Muitos astrônomos acreditam que ela poderia causar danos significativos não só em nossos equipamentos eletrônicos, mas também à nossa camada de ozônio e, consequentemente, à humanidade. Todavia, outro tanto de profissionais afirma que, quando a atual Nebulosa do Caranguejo explodiu a uma distância de 6.500 anos-luz no ano 1.054, a humanidade sobreviveu sem sequer se dar conta.
De qualquer forma, não se preocupe: T-Pyxidis só vai explodir em uns 10 milhões de anos. Nenhum ser humano estará aqui.

Se estrelas pequenas se transformam em nebulosas e estrelas grandes se transformam em supernovas, estrelas gigantes se transformam em algo tão assustador quanto desconhecido. Estamos falando dos BURACOS NEGROS.


Buracos negros deformam o espaço e mesmo o próprio tempo
onde estão... para entender isso, só sendo um físico – e você já
reparou que todo físico tem cara de doido?
Um buraco negro "nada mais" é do que uma monumental concentração de matéria num espaço minúsculo, surgida quando estrelas grandes demais chegam ao fim da vida e sua matéria enorme é tão pesada que desaba sobre si mesma... é, é meio estranho de se imaginar. E, em física, tudo que tem muita massa tem também muita gravidade, atraindo as coisas para si. Um buraco negro do tamanho de um núcleo atômico pesaria 01 bilhão de toneladas... sim, é difícil compreender isto também, mas o fato é que eles existem, e podem inclusive estar zanzando por aí.

Com relação a eles, foi proposto que tenham sido a causa do já citado evento de Tunguska, quando um deles teria atravessado o planeta. Contudo, nada foi relatado do outro lado do mundo, onde ele deveria ter saído. Além do mais, saberíamos se fôssemos atingidos por um: ao atravessar o planeta, o dito cujo faria nosso núcleo vibrar em ondas simetricamente esféricas, fazendo o mundo todo (todinho) sofrer um terremoto de igual magnitude, embora imperceptível para nós apenas os sismógrafos o registrariam. Algo que jamais aconteceu. Calcula-se que isto até aconteça, mas a intervalos de 10 milhões de anos.

Ai, mamãe! Vão ligar o LHC lá na Suíça! Uiiii...
A alguns anos atrás, quando o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês Large Hadrons Colider), a maior máquina já construída pela humanidade, foi terminado, muitos tentaram impedir seu funcionamento alegando que isto poderia gerar um buraco negro capaz de destruir a Terra e mesmo o universo inteiro. Mas aqui também não há motivo para pânico, ao menos não imediato: um dos maiores gênios (se não for o maior) da atualidade nos garantiu de que não há perigo em se ligar o LHC. E ele, talvez mais do que ninguém, tem todo interesse em ver a máquina funcionando e aumentando ainda mais o conhecimento da humanidade acerca do universo – e da própria natureza dos buracos negros, dos quais ainda se sabe tão pouco.
Pô, legal... então se um mini-buraco negro cair aqui não será o nosso fim. Mas... e se fosse um buraco negro grande? Primeira coisa, ele não cairia aqui – nós é que cairíamos nele. Isso porque o conceito de "grande" neste caso é bastante curioso... um buraco negro do tamanho de uma bolinha de golfe teria mais massa que o planeta Terra inteiro, então seria ele que nos puxaria, fazendo com que começássemos a orbitar ao seu redor. O primeiro sintoma para nós seria o fim dos dias e noites do jeito que conhecemos. Quanto mais rápido a Terra girasse em volta dele, mais curtos seriam esses períodos. Depois, continuaríamos sendo puxados, nos aproximando dele num caminho em forma de espiral. Quando a Terra chegasse à borda do buraco, a atração num lado seria tão maior que no outro que o planeta arrebentaria. E a matéria que antes formava a Terra ficaria toda esticada, até se transformar em uma nuvem comprida e enrolada ao redor do buraco. Antes de ser tragado, o ex-planeta acabaria com um formato espiralado similar ao da nossa galáxia que por sinal, está agora mesmo girando em volta de um buraco negro. Só que imenso, que pode ter um diâmetro quase 130 vezes maior que o do Sol.

Agora pense: se um buraco negro do tamanho de uma bolinha de golfe tem mais massa que nosso planeta inteiro, a idéia de um universo inteiro concentrado num único ponto, como nos sugere o Big Bang, já não parece mais tão absurda assim, não é?

De qualquer maneira, trombando com meteoro, recebendo disparo de raios gama ou tomando rajada de alguma supernova, a Terra vai sim ser destruída por um cataclisma cósmico. Não se trata de se ou quando, é 100% certo que VAI acontecer e, ironicamente, o responsável vai ser justamente aquele que permite ao nosso planeta abrigar vida: nós e toda a vida do planeta Terra seremos exterminados com a MORTE DO SOL.

Se o Sol morrer, a Terra vai junto.
Nada a ver com as ejeções de massa coronal das tempestades solares... isso só ganha espaço na mídia por 02 razões: 01) destrói satélites, estações de rádio e equipamentos eletrônicos, e 02) origina as maravilhosas auroras boreais lá nos céus da Escandinávia. Enfim, causam apenas danos materiais, e não é sobre isso que estamos tratando aqui. Idem aos pulsos eletromagnéticos, trazem prejuízos materiais e econômicos enormes, mas ninguém morre diretamente por causa deles. A humanidade passou centenas de milhares de anos sem tecnologia artificial alguma e, ainda que a níveis extremamente primitivos, pode muito bem voltar a viver sem ela.

A estrela ficará tão imensa que seu equador
alcançará a órbita de Marte!
A disgracera se dará da seguinte maneira: como toda estrela, nosso astro-rei também tem um ciclo de "vida". No momento, ele encontra-se na fase anã amarela de sua existência, algo como um "trintão". Mas conforme envelhece vai gradualmente perdendo combustível, e quando o hidrogênio do núcleo for totalmente consumido ele vai começar a queimar o material das camadas mais externas, o que fará com que cresça inimaginavelmente até se transformar numa supergigante vermelha. E vai ser quando essa fase se iniciar que a Terra irá pras cucuias. Em no máximo 1,5 bilhão de anos, com o aumento da atividade solar (e da temperatura na superfície) os oceanos do planeta vão evaporar – e todas as formas de vida que porventura ainda estiverem aqui serão totalmente aniquiladas. Em 05 bilhões de anos, o sol estará tão monumentalmente grande que os planetas mais próximos, Mercúrio e Vênus, se espiralarão em direção à estrela e provavelmente serão vaporizados. De nossa linda Terra, restará apenas uma bola de rocha incandescente e liquefeita, sem qualquer relevo ou indício de vida. Tudo será completamente destruído.



Mas fique tranquilo! Já teremos desaparecido daqui muitíssimo antes disso. Depois dessa fase, quando até as camadas exteriores forem finalmente consumidas, o sol ficará muitíssimo pequeno e se transformará em uma fria, escura e totalmente sem graça estrela anã branca, encoberta pela nuvem de poeria e gases resultantes de seu próprio desgaste: uma nebulosa.
E ainda vamos ter sorte por isso! Não sendo uma estrela massiva, o sol não chegará a explodir como uma supernova e nem sucumbirá a si mesma como um buraco negro.

                         Prepare-se: Gliese-710 está chegando...                   
E tem muita coisa que nós nem sequer fazemos idéia que existam nesse universo gigante. E outras que, apesar de já conhecidas ou ao menos teorizadas, são tão estranhas que nem conseguimos imaginar! Astros que, de uma hora pra outra, simplesmente se direcionam para um lugar totalmente fora de sua órbita de repente. Já falei sobre como isso pode acontecer com os cometas, mas mesmo planetas e até estrelas podem, de uma hora pra outra, sair andando por aí! E se não nos impactarem diretamente, podem acabar provocando distúrbios em sua passagem com potencial para nos causar muita dor de cabeça. São os ASTROS NÔMADES. A estrela-anã Gliese-710 é um bom exemplo: ela está vindo pra cá neste instante, e astrônomos prevêem que ela, que hoje encontra-se na constelação da Serpente, a 63 anos-luz de distância, pode chegar a apenas 01 ano-luz de nós dentro de 1,4 milhão de anos. Ainda pode parecer longe, mas vai ser tão perto que gerará perturbações gravitacionais na Nuvem de Oort, e aí nós tamo fu, porque lá tem, por baixo, uns 100 bilhões de núcleos cometários... centenas de milhares dos quais, por causa desse distúrbio, serão lançados em nossa direção.


E claro, não podemos deixar que considerar a hipótese de aniquilação por FORÇAS EXTRATERRESTRES. Não é nada absurdo mas, como (ainda) não temos nenhum indício de vida fora da Terra, pouco podemos conjecturar à respeito. Por isso, sobre este assunto deixo vocês com as palavras de alguém que provavelmente entende mais sobre o assunto do que qualquer outra pessoa viva no planeta: Stephen Hawking.


"Nós só temos que olhar para nós mesmos para ver como vida inteligente pode evoluir para alguma coisa que não gostaríamos de encontrar. Se os alienígenas nos visitassem, as consequências seriam semelhantes às quando Colombo desembarcou na América, algo que não acabou bem para os nativos."

Parece que o desenvolvimento da racionalidade é fator negativo para a vida, seja na Terra ou em qualquer outro lugar. Que ironia.

Se você já tinha se achado insignificante lendo o artigo sobre desastres naturais, agora certamente está se achando pífio, nulo.
E para o universo, você ainda é menos que isso.


Que nós vamos desaparecer não se tem mais dúvidas. Só não sabemos como nem quando. Mesmo que nada aconteça em milhões de anos, o sol vai dar cabo de nosso planeta em bilhões. E mesmo que consigamos escapar à agonia de nossa estrela, não devemos nos esquecer de que o próprio universo pode ter um "tempo de vida" e entrar em colapso. A questão tempo é relativa nesse caso.

Os links de hoje estão aí:



Como dito antes, a única catástrofe que temos certeza que vai acontecer é aquela que acompanhará a agonia do sol. Tudo bem, só daqui a muito tempo e provavelmente bem depois do último ser humano sumir daqui, mas ainda assim vai. Contudo, muito antes disso, sempre poderemos estar à mercê de algum perigo desconhecido e dentre estes, o que mais mete medo certamente é o Galactus!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Os Invasores


Não é ao grupo da Marvel que me refiro...

Aproveitando o sucesso de Os Vingadores (e também porque sou fã irrecuperável da Marvel Comics), coloquei como imagem de abertura uma figura dos Invasores, primeiro super-grupo daquela editora. Mas ao contrário destes, os invasores dos quais vou tratar aqui não têm nada de heróicos ou benevolentes. Pelo contrário, são uma ameaça ao planeta! Ao longo do artigo, você conhecerá vários deles e onde estão causando problemas.

Você já viu aqui neste blog diversos exemplos de cagadas que a humanidade (incluindo você) fez, faz e sempre vai fazer no mundo. E, pra não fugir à linha, agora vai ver mais uma – que assim como as outras, também é um tanto sutil e inconveniente, porque praticamente ninguém fora do meio científico (e mesmo muitos dentro dele) se toca da mesma: a bioinvasão.

Segundo James T. Carlton, professor de ciências marinhas do Williams College, de Massachussets (EUA), por este termo entende-se a chegada, estabelecimento e expansão de uma espécie exótica em um local que não é seu habitat natural historicamente conhecido, resultante de dispersão acidental ou intencional por atividade humana (pra variar).

E por que ninguém sabe deste assunto? Por dois motivos: o primeiro é o total desinteresse do público mesmo; o outro é que tendemos a combater apenas animais que nos causem problemas de forma direta (como cupins, mosquitos e pragas agrícolas), ou então que sejam visualmente repulsivos (como ratos e baratas). E isto quando não exterminamos espécies que não nos causam absolutamente nada – ao contrário, nos ajudariam a combater justamente as que são nocivas. Neste quesito podemos colocar cobras, sapos, aranhas e escorpiões nativos.

Sapo cururu (Bufo marinus), tocando o terror na Austrália.
E existem ainda aquelas criaturas que nem imaginaríamos que não deveriam estar por aqui. Seu cachorrinho, por exemplo, não deveria existir. Ao menos, não no Brasil. Tudo bem, ele não é exatamente nocivo (embora transmita raiva e sarna, dentre outras) mas é descendente do lobo cinzento (como você já deve ter visto AQUI) e foi trazido pra cá pelos europeus. Idem aos gatos, que não são nocivos para nós especificamente, mas fazem o terror de nossos belos passarinhos (as menores estimativas calculam em 80 MILHÕES o número de pássaros mortos anualmente em todo o mundo por nossos gatos). O mesmo com relação a bois, cavalos e galinhas... tudo isso veio da Europa. Originalmente, não deveriam estar aqui, o mesmo acontecendo com várias espécies de invertebrados e até de plantas (ver mais adiante).

O maior aliado da maioria destas espécies é justamente o desconhecimento que temos das mesmas, o que passa uma falsa ideia de que não sejam prejudiciais. Temos muito nojo de insetos e roedores em virtude dos prejuízos diretos (financeiros ou de saúde) que os mesmos nos causam, mas não nos importamos sequer sabemos! quando essas espécies se tornam devastadoras para outras formas de vida. Mas para ilustrar melhor isto tudo, nada melhor do que alguns exemplos práticos. Vamos a eles.

Ooooh... não é lindinho? NÃO!
Todo mundo acha o pardal (Passer domesticus) uma doçura de criatura, passarinho fofinho e bonitinho que não incomoda ninguém... ledo engano. Essa desgraça originária do Oriente Médio talvez seja hoje o maior invasor do mundo e a 2ª ave mais comum do planeta, perdendo apenas para a galinha doméstica. Começou a se dispersar através da Europa e Ásia, chegando na América por volta de 1850. Aqui no Brasil, apareceu em 1903, quando o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, autorizou a soltura de 200 exemplares importados de Portugal para "ajudar no combate a insetos nocivos". Hoje, a presença desta ave é garantida em quase todos os países do mundo. Embora prefira áreas urbanas, em nosso país até na Amazônia e no Atol das Rocas, 230km oceano adentro, o malditinho já apareceu.

Mas qual o problema com ele? Pra nós, até que poucos.
Mas para a natureza...

Trazido para ajudar a combater insetos, ele de fato até o faz, convenhamos. Só que, assim como o rato, é capaz de comer qualquer coisa inclusive grãos comestíveis para nós. Arroz, milho, frutas, verduras... nada escapa ao seu apetite, é um tremendo de um glutão! Além disso, ele afugenta os úteis passarinhos insectívoros originais, como o tico-tico, a corruíra, a tesourinha e até o anu e o simpático bem-te-vi, bem maiores que o pardal. Isto por si só já seria o bastante, se o "coiso" ainda por cima não utilizasse os mesmos locais que nossos passarinhos para fazer seus ninhos. Isto quando não os expulsa de seus próprios (existem relatos de pardais afugentando até joões-de-barro de suas casas). Ou seja, ele está reduzindo nossa população nativa de pássaros, eliminando competidores por comida... e se tornando cada vez mais numeroso.

Aliás, pássaros de uma forma geral são poupados de culpa quando se trata de apontar bioinvasores. Inclusive o comércio deles é totalmente livre (se duvida, digite passaros exoticos a venda no Google e se prepare para a enxurrada de sites que comercializam pássaros estrangeiros). Isto porque nenhum deles traz malefícios notórios para a população em geral e são criaturas visualmente amáveis e sonoramente encantadoras. Por exemplo, quem é que acha o bico-de-lacre ou o diamante-de-goudi bichos desagradáveis? Pois é, mas eles também são exóticos e não deveriam estar no Brasil. Só que tem uma ave cuja (má) fama é bem conhecida: o pombo (Columba livia).

Símbolo da paz... e sujo pra car@L#$% !!!
Esse inveterado fazedor de cocô é outra presença obrigatória em nossas grandes (e médias e pequenas e micro) cidades. E pra variar, também veio da Europa. Só que é ainda mais antigo que seu amiguinho pardal: está por aqui desde o Séc. XVI, quando chegou junto com os portugueses nas caravelas, e se espalhou por tudo. O ajuda muito o fato de ser associado à paz e por ser a "imagem de Deus descendo sobre Jesus em seu batismo", o que lhe deu uma aura de intocabilidade durante séculos a fio.
Contudo, esse animal vem merecendo uma atenção mais especial, principalmente das autoridades de saúde, por causa de suas fezes que, além de serem as vetoras de uma série de doenças, são assustadoramente ácidas, com poder corrosivo suficiente para destruir até aço. Imagine então o que faz com esculturas de bronze, ou lataria de carro. Uma das possíveis soluções para contê-lo é o Ornitrol, um milho revestido por uma camada quimioesterilizante, que pode ser jogado nas praças onde se concentram. Isso ajudaria a reduzir a fecundidade dos animais mas faria o mesmo com outros pássaros. E agora?

Ratazana de esgoto.
Mas quando se fala em bicho repulsivo, provavelmente o primeiro animal que vem à sua cabeça é o rato doméstico (Rattus norvegicus). Também pudera: a criança vive no lixo e no esgoto, e tem nada menos que 35 doenças associadas, muitas das quais promoveram verdadeiros episódios de extermínio em massa na humanidade, como a Peste Negra do Séc. XIV. Ainda hoje, mesmo com todas as condições sanitárias e medidas profiláticas, não há como manter-se muito longe de um rato, esteja você onde estiver. Ele é talvez o animal mais troficamente generalista que existe: pode comer absolutamente de tudo, desde grãos, passando por ossos até papel e fios elétricos.
Por que este roedor se tornou o que ele é hoje? Pelos mesmos motivos de 660 anos atrás: ajuda humana. Nossas cidades são o Éden para eles... lugares pequenos, escuros e apertados, fartura de lixo e suprema falta de predadores
ou você vê muitas cobras, corujas e mesmo gatos pelas ruas? Pois é... a peste bubônica só não toma novamente proporções continentais porque hoje em dia temos vacina, saúde pública (no nosso caso aos pandarecos, mas temos) e medidas de combate ao roedor. Mas a relação rato / homem já é praticamente um parasitismo, e o primeiro talvez só desapareça da face da Terra se o segundo sumir antes.
Talvez mais do que em qualquer outro caso, o rato doméstico traz, com sua péssima fama, muitos problemas para outros roedores que nada têm a ver com a história. Existem mais de 700 espécies de ratos, das quais apenas ele nos causa transtorno. Todavia, as diferenças são tão pequenas que matamos todo e qualquer animal meramente parecido com um rato hamsters, lemingues, jerboas, camundongos e até mesmo gambás acabam pagando o pato por serem "parecidos".

E não são apenas os animais... um montão de espécies de plantas também entram nessa lista. Se você está tomando café agora, saiba que é uma espécie exótica. Se estiver saboreando uma bela limonada ou um caldo de cana geladinho também. E não se engane quanto à imobilidade ou suposta impotência de uma planta. Na verdade, algumas delas podem ser tão destruidoras quanto os bichinhos.

Ou até mais. A segunda espécie invasora mais perigosa de todas... é uma árvore: a acácia (Acacia cyanophylla).

Quem diria, não? Esta inocente arvorezinha é o 2º organismo invasor mais devastador e perigoso da face da Terra.


Essa árvore foi trazida da Austrália para fins de ornamentação no mundo todo. Depois "descobriram" que ela também era ótima para recuperar matas às margens de rios... tudo errado! A mardita destruiu tudo por onde passou. Sua capacidade de captar azoto atmosférico e dispersá-lo no solo provoca mudanças na composição biótica do mesmo, com efeitos devastadores para as espécies vegetais nativas. Suas raízes também destroem calçadas, pavimentos e tubulações subterrâneas. Além de tudo é extremamente resistente, nem queimando ela morre (tampouco suas sementes). Só pode ser exterminada com herbicidas muito poderosos, que arrasam todas as plantas em seu entorno. Na Cidade do Cabo, África do Sul, onde é uma verdadeira praga urbana, a introdução de um fungo (Uromycladium tepperianum) mostrou-se eficaz, eliminando 80% das árvores daquela cidade. Mas ainda não se sabem que efeitos esse mesmo fungo pode ter em outras espécies vegetais.

O eucalipto (Eucalyptus sp.) é outra porcaria de árvore que jamais deveria ter aparecido por aqui. Originário da Austrália, foi trazido para cá no Séc. XIX para a indústria madeireira. Postes, pontes, dormentes de ferrovias, cercas, móveis, carvão... sua madeira é extremamente adaptável.
Só que, infelizmente, o eucalipto é muito mais. É uma árvore que apresenta uma das mais altas taxas de transpiração entre todas. E isto exige grande quantidade de água
que ele vai retirar de onde estiver. Na Austrália, que é quase toda formada por savana e deserto, ele tinha que se virar, mas quando chegou aqui e encontrou esse paraíso tropical de água doce, o eucalipto tocou o foda-se geral.

Só ele gosta de eucalipto...
Isso porque cada exemplar consome, em média, 30 litros de água por dia. Agora imagine uma plantação "de reflorestamento" com milhares deles. Em todo lugar onde é plantado, o eucalipto arrasa os recursos hídricos. Um exemplo é a região norte do Espírito Santo, onde mais de 130 córregos foram totalmente secos depois que a árvore foi introduzida lá. Além de secar cursos d'água menores, provoca o assoreamento de rios, e a falta dessa água afeta não apenas os animais que bebem dela, mas também as plantas nativas e culturas agrícolas por vezes até bem longe de onde os eucaliptos estão, deixando bastante evidente que a perda de produtividade da terra talvez não compense os ganhos com o comércio da madeira da árvore.
Quando ela é plantada em locais com baixa oferta d'água, parece que se enfurece ainda mais e procura o líquido com ainda mais força, com resultados terríveis: ressecamento de olhos d'água e até de poços artesianos, podendo inclusive aprofundar o próprio lençol freático. É tanta, mas tanta coisa ruim que não dá pra colocar tudo aqui. Esse artigo vai trazer-lhes muito mais (péssimas) informações.


Mas por que, apesar de todos esses malefícios que são conhecidos, ele continua sendo plantado? Dinheiro, oras bolas. A Aracruz Celulose S/A é a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, e cerca de 95% de sua produção é destinada à exportação, gerando lucros colossais. Empresas de reflorestamento devastam extensões gigantescas de floresta nativa e rapidamente entopem a área com eucalipto ou pinheiro, que crescem rápido, são grandes e frondosos e em poucos anos deixam a área coberta de verde novamente. É claro, então, que o setor sempre vai defender o eucalipto. E pode até ter lá sua dose de razão, mas isso não exclui o fato de que a árvore é exótica e não deveria estar em nossas terras.

Uma das piores características de monoculturas como as do eucalipto ou do pinheiro é um efeito colateral conhecido como "deserto verde". Trata-se de uma área sem biodiversidade alguma, tomada por uma única espécie de planta que não dá chance a nenhuma outra de se estabelecer. São, portanto, desertos de vida. Os defensores da ideia enchem a internet e o debate com fotos de monoculturas cheias de outras plantas, tentando fazer cair o mito do deserto verde mas conveninentemente não mencionam que as plantas em questão não passam de mato, capim e outras espécies extremamente oportunistas, conhecidas como ruderais. Além disso, também alegam implementar amplas medidas socioambientais e de preservação, além do infalível argumento da geração de empregos... tudo mentira. Monoculturas como essas, controladas por corporações gigantescas, são quase 100% mecanizadas, não necessitando de mais do que meia-dúzia de funcionários para manufaturar tudo. Na época em que estava buscando financiamento, a Aracruz afirmava que cada hectare de plantação de eucalipto geraria em média 04 empregos diretos. Fazendo as contas, seus 247 mil hectares gerariam então 988 mil empregos, um sonho para qualquer investidor! No entanto, segundo dados de 2004 gerou apenas 02 mil 986 mil a menos do que havia prometido.

Um bom exemplo de "deserto verde" é esta plantação de eucaliptos do Grupo Suzano, no Piauí. Biodiversidade zero e empregos próximos a isso em contrapartida aos arrasadores lucros da empresa e aos imensos prejuízos sociais e ambientais.

Dei destaque à acácia e ao eucalipto, mas existem dezenas de outras espécies de plantas exóticas no Brasil. Vá até seu jardim ou à pracinha da esquina e dê uma boa olhada. Beijinho, jambolão, bisnagueira, mangueira, caquizeiro, limoeiro e laranjeira... tudo isso é exótico. Se bobear, nada que existe em seu jardim ou em seus vasinhos em cima da mesa da cozinha são nativos daqui.

Toda espécie invasora possui uma vantagem competitiva com relação àquelas que acabam destruindo, chamada generalismo: capacidade de, literalmente, se virar, consumindo qualquer  alimento disponível e se adaptando à quaisquer condições ambientais.

Mas embora destruam o meio-ambiente, elas não o fazem por serem realmente malvadas, não que queiram instintivamente devastar tudo (ao contrário de alguns filhas-da-puta da bancada ruralista do nosso sempre infeliz Congresso Nacional)... elas estão apenas e tão somente seguindo as mesmas leis da evolução que todas as espécies seguem, e não apareceram aqui sozinhas, foram trazidas. Só que se deram tão bem, mas tão bem que, hoje em dia, é quase consenso que algumas delas (como o já citado pardal) se tornaram simplesmente "inextermináveis".

Falcões-peregrinos são predadores naturais dos
pombos, e podem ser uma boa alternativa. Mas

não darão conta sozinhos.
A questão não é nada simples, e carrega muita polêmica: o mais correto seria promover uma forma de eliminar todas essas espécies nos locais onde as mesmas não deveriam existir. Muitos podem até me contextar como biólogo que sou, mas é exatamente por isso que defendo tal idéia.
Contudo, também defendo que podemos fazer algo mais inteligente do que sair destruindo-os a esmo, até porque, como já disse, não é culpa deles terem sido levados pra fora de seu habitat original. A culpa por estarem onde não deveriam estragando o que não poderiam é exclusivamente nossa. Existem várias alternativas, e todas com seus prós e contras. Uma delas seria dificultar ao máximo a reprodução de tais espécies. Para aves como o pardal, por exemplo, bastaria tapar os beirais dos telhados para evitar que nidificassem. Se o tentassem em ambiente selvagem, seriam mais facilmente controlados por cobras, gambás e gaviões.
Ainda aproveitando nossos predadores nativos, poderíamos aumentar seu numerário (de forma controlada, por favor!) para que pudessem caçar os invasores. Já para árvores e plantas, seria o simples caso de parar de plantá-las ou mesmo cortá-las, trocando-as por espécies originais. Ideal não é, mas...

Mas são medidas, se não fáceis, extremamente caras, e seu êxito é extremamente duvidoso. Além do que, existem árvores exóticas centenárias, até mesmo históricas e que, com a atual onda de derrubada de árvores em nossas cidades, dificilmente teriam seu corte bem aceito pela sociedade. Um exemplo são as magníficas palmeiras imperiais do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, originárias das ilhas Maurício, 10 mil km a leste. Qualquer um que atreva-se sequer a falar em cortar aquilo vai ser no mínimo excomungado!

Infestação de coelhos na ilha Macquarie: sequência de erros
HUMANOS que culminaram em uma catástrofe ecológica.
E o controle de pragas e espécies exóticas nem sempre traz bons resultados... um exemplo recente foi o da ilha Macquarie, da Austrália. A história daquilo ali é a seguinte:No Séc. XVIII, caçadores de focas exterminaram toda a população destes animais e introduziram camundongos e ratos (acidentalmente). Sem predadores, a população de roedores explodiu e se tornou insustentável, fazendo com que alguém tivesse a "brilhante" idéia de espalhar gatos pela ilha. Também despejaram coelhos (propositalmente), para que servissem como fonte de carne para possíveis náufragos futuros. Isto por si só já arrasou com a cobertura vegetal do lugar. Em 1968 a população de coelhos, mesmo com os gatos, ultrapassou os 100 mil numa ilha com apenas 40km de comprimento. O governo australiano introduziu então um vírus mortífero chamado myxoma entre os animais, que perderam 80% de seu numerário. Só que por conta disso, os gatos, que estavam acostumados a comer grandes e gordos coelhos, ficaram com mais fome e passaram a caçar as aves nativas da ilha, na razão de até 60 mil por ano, ameaçando seriamente tais espécies. Aí o governo decidiu que havia chegado a vez dos gatos e, em 1985, iniciou um programa de matança sistemática, até que em 2000 o último gato foi eliminado. Sem predadores, adivinha o que aconteceu com a população de coelhos...?
Pois é, os que sobraram sobreviveram à seleção natural causada pelo vírus, tornaram-se imunes e sua população explodiu, destruindo 40% de toda a vegetação nativa. Num episódio, eles destruíram tanto a vegetação numa encosta que esta desabou, soterrando uma colônia inteira de pinguins que estavam lá embaixo. Em um efeito conhecido como "cascata trófica", a ilha foi arrasada.
Agora eles vão mexer na ilha de novo! Vão tentar consertar toda a caca e restaurar a composição original da ilha. Pode vir a dar certo ou não (mais provável que não, aliás) e vai custar muuuuuuito caro... é só um exemplo de como recuperar um ambiente infestado por espécies invasoras é extremamente difícil.


Além do mais, se fôssemos realmente limpar a biosfera de todos os organismos invasores que já espalhamos pelo mundo, esbarraríamos na mais invasora e prejudicial de todas as espécies do planeta: a nossa.

Lembra-se lá em cima quando disse que a acácia era a 2ª maior ameaça do planeta? É porque nem todas elas unidas e multiplicadas se comparam à humanidade quando se trata de destruir, devastar e arrasar o meio-ambiente. Tem sido assim desde a pré-história e vai continuar, enquanto estivermos neste planeta.

Para nossa grande e eterna vergonha.


Ave entupida de óleo durante o episódio do vazamento da British Petroleum, no Golfo do México, em 2010. Clique na imagem para ver mais fotos horríveis do evento.

Conhecedores do assunto certamente sentirão a falta de invasores famosos, como a tilápia, o caramujo africano, o molusco zebrado ou a abelha africana. Estas e muitas outras criaturinhas indesejadas podem ser encontrados fuçando nos links sugeridos abaixo:

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Terra é de Plástico!





Com o devido exagero, seria essa a frase que Yuri Gagarin diria se fizesse a primeira órbita completa em nosso planeta num futuro (talvez não muito) distante.

É impossível conceber o mundo moderno sem plástico. Seria como lhe cortar a eletricidade, por exemplo. Simplesmente não dá mais pra viver sem ele.

Embalagens para qualquer coisa, recipientes idem, bóias de barco, isopor, roupas de nylon, tampinhas de garrafa (e as próprias garrafas), hastes de cotonetes, fitas adesivas, mangueiras de jardim, televisores, computadores, impressoras, CD’s, fios elétricos, lonas, esponjas de banho, filmes para vidros, para livros, balões, super colas, saquinhos de leite, canudos, piscinas, brinquedos, escovas de dentes, de cabelos, pentes, ventiladores, tampos de vasos sanitários, calçados, copos, caixas d’água, ferramentas, eletrodomésticos, móveis... enfim, quase tudo hoje em dia é feito de plástico. Se sua casa não for antiga, todos os canos e fios que lhe permitem ter energia e água são de plástico. Todos os interruptores elétricos quase certamente também.


E mesmo as coisas que não são 100% feitas de plástico estão aumentando sua proporção do material. Um bom exemplo são os carros. Nos últimos 30 anos a porcentagem de plástico nos automóveis aumentou de 5% para 15%. O painel dos carros hoje já é quase totalmente feito de plástico (poliacetileno/acrilonitrila-butadieno-estireno); alguns faróis, tetos solares e painéis de lataria (polibutileno tereftalato) também, bem como bancos, espumas e pneus (poliuretano), refletores (polieterimida), aerofólios, frisos laterais e de janelas (policarbonato/poliereftalato de etila), calotas (poliacetileno/polióxido de fenileno), volante e grade frontal (policarbonato), filme dos vidros (policloreto de vinila) e até mesmo os espelhos (policarbonato/acrilonitrila-butadieno-estireno). Como pode-se ver,  alguns têm nomes tão compridos que faz-se necessário tomar fôlego para conseguir falá-los.


Pra começar, todo plástico é um polímero, mas nem todo polímero é plástico. O que torna necessário perguntar: O QUE É POLÍMERO? Moléculas orgânicas simples de carbono e hidrogênio que se aglomeram repetidas e repetidas vezes, formando cadeias poliméricas (veja a figura ao lado). Nem todo polímero é artificial: bichos-da-seda os produzem, e as aranhas já os tecem desde o Carbonífero; idem às árvores, que tão logo apareceram começaram a produzir celulose, amido e lignina, e um pouco mais tarde algodão e látex... isso tudo é polímero. Até você produz polímero: o colágeno de suas unhas e ossos é um.


O besouro-laca (Laccifer laca).
E um dos primeiros polímeros naturais a serem usados é produzido por um inseto. No centro-sul asiático, ali pela Índia e Paquistão, existe um "besouro" (na verdade, um percevejo) chamado besouro-laca (Laccifer lacca) que produz uma secreção polimérica conhecida como goma-laca. Até o início do século passado ela era a única substância conhecida usada para revestir fios elétricos, conexões e daguerreótipos (câmeras fotográficas), bem como discos de vinil (os “bolachões”).

Apesar de artificial, o plástico é um polímero baseado em petróleo, que é uma substância orgânica. Portanto, suas reações químicas são regidas pela Química Orgânica, e são muito difíceis de se executar em laboratório tanto que, até a primeira metade do século XIX, acreditava-se na chamada “Teoria da Força Vital”, enunciada por um célebre alquimista da época, o sueco Jön Jacob Berzelius: “Reações orgânicas só são possíveis no interior de seres vivos, através da ação de uma ‘força vital’”. Por isso, até o começo do Séc. XX a humanidade só se valia de polímeros naturais, uma vez que ainda não dispunha da tecnologia capaz de fazer reações entre os compostos de carbono.



F. Wöhler foi o primeiro a conseguir sintetizar um
polímero natural em laboratório...
Mas voltando à linha do inseto, em 1828 um discípulo de Berzelius, o alemão Friedrich Wöhler conseguiu sintetizar uréia a partir de isocianato inorgânico em seu laboratório, derrubando a Teoria da Força Vital, proposta por seu mestre. Com a queda deste dogma, começou uma corrida pela pesquisa de polímeros. Ainda não era possível sintetizá-los artificialmente, mas a pesquisa de Wöhler mostrou que era possível alterar os polímeros naturais, visando uma maior variedade para suas aplicações.


E as descobertas foram aparecendo rapidamente: em 1835 apareceu o cloreto de vinil; em 1838, o nitrato de celulose; em 1839 o americano Charles Goodyear inventou o processo de vulcanização da borracha natural (descobriu agora o motivo para o nome do pneu?); em 1865 surgiu o acetato de celulose; em 1884 desenvolveu-se a primeira fibra artificial, a rayon de viscose; em 1905 inventou-se o celofane... mas a coisa só virou problema de vez em 1909, quando o químico belga Leo Baekeland, então em Nova York, acrescentou fenol (ou ácido carbólico de alcatrão, para os químicos mais chatinhos) a uma mistura de formaldeídos sob calor e pressão e deu origem à baquelita, o primeiro plástico da história (o nome não é mera coincidência com o do cara). Fácil de ser moldada durante a fabricação mas extremamente rígida e durável após seu término, foi um sucesso comecial. Se você tem curiosidade de saber como ela é, vá até a cozinha e pegue uma panela. Provavelmente seu cabo é feito dela. Com a baquelita, Baekeland ficou muuuuuito rico... e o mundo começou a ficar muuuuuito sujo.


... abrindo caminho para Leo Baekeland produzir
o primeiro plástico artificial da história. Por isso é

considerado o "pai do plástico".
Não apenas por causa da baquelita, mas porque outros químicos sentiram cheiro de lucro com aquilo e começaram a se trancafiar em seus laboratórios tentando inventar qualquer coisa parecida, quebrando longas cadeias moleculares de petróleo cru e misturando essas partes pequenas para saber o que dava pra ser feito com elas, quais variações do plástico original poderiam ser úteis para encher seus rabos de dinheiro. Era como os atuais biotecnólogos, pessoas que não têm nenhuma vida social, não fazem sexo, não fazem nada a não ser passar o dia inteiro fechados e isolados dentro de seus laboratórios, com um montinho de matéria orgânica (animal, vegetal ou qualquer outra), em cima da mesa, coçando o queixo e pensando “o que que eu posso inventar pra tirar algum dinheiro desta merda”...? E infelizmente, para o planeta, aqueles químicos de meados do século passado conseguiram inventar um montão de plásticos diferentes: em 1922 a borracha foi sintetizada; em 1931 surgiu o neoprene, 1933 o poliestireno e em 1939 o polietileno.


Manitoba, Canadá.
Vamos a três exemplos bem práticos: a busca por um fio artificial, capaz de substituir a seda, levou em 1929 à poliamida, mundialmente conhecida como nylon – que você, se for mulher, deve estar usando nesse momento, cobrindo suas lindas pernocas. Este "tecido" revolucionou a indústria têxtil e ajudou a popularizar o plástico; em 1948, visando uma forma de ligação entre materiais reversível de forma simples e inspirando-se nos ganchos da semente da bardana (Arctium sp.) foi criado o velcro da sua mochila da época do colégio; e em 1952, adicionando-se cloro à composição original da baquelita criou-se um plástico duro, muito resistente, conhecido como policloreto de vinila, ou PVC. Soprar gás enquanto essa mistura se formava originava bolhas duras, unidas, em seu interior, conhecidas quimicamente como poliestireno, comercialmente como Styrofoam, e popularmente como... isopor.


Barrow, Alasca.
Até antes da guerra o plástico ainda tinha um sucesso modesto. A única exceção era a já citada baquelita, usada nos fios de telefones e rádios – que naquela época eram extremamente duráveis, bem diferentes das porcarias descartáveis e programadamente obsolescentes que temos hoje. As embalagens de plástico para praticamente tudo ainda não tinham sido inventadas, então, mesmo com a guerra rugindo no Atlântico e no Pacífico, nossos mares eram muitíssimo mais limpos.

Com o fim do conflito e a disponibilidade do plástico para outros fins que não bélicos, uma avalanche de opções inundou o mundo do consumo. Novos tipos de plástico surgiram (como polipropileno e policarbonato) e começou a aparecer de tudo: caixas de acrílico, plexiglas, garrafas de polietileno, embalagens de polipropileno e brinquedos de poliuretano. De todas elas, as que mais mudaram o mundo (para pior) foram as embalagens de cloreto de polivinil e polietileno, que são transparentes e nos permitem ver os produtos, geralmente alimentos, nelas contidos, além de conservá-los por muito mais tempo. Como aquelas que envolvem queijo e presunto.
Além disso tudo, o plástico, sendo mais leve e durável, foi substituindo os materiais preferidos até então, como metal e madeira. Rádios, telefones e televisores, dentre inúmeros outros, passaram a ser fabricados com plástico.


Rio Vacha, Bulgária.
Só que em pouco tempo o lado ruim dessa porcaria de substância começou a aparecer. Nos anos 1960 cunhou-se a famosa expressão "sociedade do descarte". A despeito do fato de que descartar lixo era feito desde sempre pela humanidade, desde quando éramos caçadores-coletores, agora estávamos jogando fora uma coisa que não apodrecia, não desaparecia na natureza, e com uma terrível e enganosa vantagem: exatamente por não apodrecer e por ser seco, o lixo plástico era mais "agradável" do que restos orgânicos que liberavam líquidos fétidos se demorassem muito tempo para serem levados embora. Isso gerou uma falsa idéia geral de que o plástico era mais inofensivo do que o lixo natural, que podia atrair insetos e roedores – e, com eles, doenças.


Costa do Havaí.
Mas, em se tratando de lixo, é absolutamente fundamental que o mesmo se decomponha, e o fedor é um preço pequeno a se pagar por isso. E é aí que está a grande diferença entre o lixo orgânico e o plástico: os primeiros estão aí a tanto tempo que os microorganismos já se familiarizaram com eles a centenas de milhões de anos, e sabem como "comê-los" (ou quebrá-los em monômeros, dímeros ou até em cadeias maiores, mas ambientalmente inofensivas) e os tornarem inócuos.


Para o planeta, o plástico é uma coisa ainda muito nova. Sabemos criá-lo, mas não temos a menor idéia de como destruí-lo sem causar danos ambientais (queimá-lo não adianta muito). Não temos idéia do quanto podem durar, tampouco o que vai acontecer com eles em qualquer tempo geológico futuro. A natureza também não sabe o que fazer com ele, não existem bactérias decompositoras que consigam digerí-lo. E ninguém sabe se um dia existirá alguma que consiga.

Os plásticos ainda não estão por aqui tempo suficiente para que os microorganismos desenvolvam uma estratégia para lidar com eles e destruí-los. Até o momento, tudo que eles conseguiram foi biodegradar a parte do plástico cujo peso molecular é mais baixo – as cadeias de polímeros menores, já quebradas.


A matéria-prima do plástico é uma coisinha minúscula chamada nurdle. São pequenos cilindros, de 2mm de comprimento, que são derretidos para se fazer toda e qualquer coisa de plástico que existe no mundo. São produzidas anualmente 120 milhões de toneladas – ou 5.500.000.000.000 (lê-se 5,5 quatrilhões) de unidades individuais, das quais nem todas são utilizadas. Uma quantidade enorme delas simplesmente se perde e acaba no ambiente.


Os famigerados nurdles. Tudo que é feito de plástico é fabricado
a partir dessa porcariazinha aí.
Apesar de não serem microscópicas, são suficientemente pequenas para serem absorvidas por águas-vivas e salpas, organismos que funcionam como "filtros" dos mares. Mesmo aves como gaivotas e pelicanos confundem essas porcarias brilhantes e chamativas com ovos de peixe ou o pequenino camarão krill e também os ingerem. E agora não existe forma de se calcular a quantidade de partículas iguais a essas que estão, no exato momento em que você lê este artigo, indo em direção ao mar, revestidas por substâncias químicas tóxicas e satisfatoriamente diminutas para serem comidas por criaturas pequenas, que serão comidas por outras maiores, que serão presas de outras ainda maiores – muitas das quais peixes dos quais NÓS nos alimentamos.
E mesmo que não fossem! Seríamos, além de egoístas, estúpidos demais se nos preocupássemos apenas por um incômodo direto!


Ah, esqueci... é exatamente assim que nos comportamos...


Mas se os nurdles não são microscópicos, seus produtos de plástico estão começando a ficar assim.

Plástico granulado se mesclando com a areia da praia.


Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. O velho ditado é verdade, como todos sabem: a ação mecânica das ondas transforma pouco a pouco pedras em areia. Só que agora ela está agora fazendo o mesmo com o próprio plástico. E não existe sinal algum em qualquer lugar do mundo de que o plástico esteja se biodegradando, mesmo quando reduzidos a esses pedaços microscópicos. E o maior problema disso é que, quanto menor o tamanho, maior o problema que ele causa.


Rio Citarum, Indonésia.
Hoje o plástico no oceano está ficando tão granulado que suas partículas já chegam a até 20μm, menor que um fio de cabelo, e quase tão pequenas que falta pouco para que sejam assimiladas até pelo microscópico plâncton oceânico. O polímero está se quebrando em pedaços tão pequenininhos que já não estão mais flutuando, mas ficam em suspensão na água do mar. Ou seja, as medidas de quantidade de plástico no mar são totalmente desconhecidas e o tamanho de seus pedaços está ficando cada vez menor, a ponto de se esconder nas correntes marinhas e entrar na cadeia alimentar oceânica, base da vida na Terra. Simplesmente não se sabe quanto plástico existe por aí. Só se sabe que estamos enchendo o oceano com um sem-número de tipos de polímeros à base de petróleo, como acrílico, poliéster, náilon, polietileno, polipropileno, cloreto de polivinil e isopor
Mas existe uma coisa da qual o plástico não tem culpa: o transbordamento de nossos aterros sanitários, vulgo "lixões".


Praia de Sidon, Líbano.
Isso porque o plástico é uma substância leve demais, mais que a maioria das outras coisas que jogamos no lixo. Se não for compactado e enterrado ou lacrado em um lugar seguro (ou ainda queimado), seu destino sempre será a água, partindo de pequenas redes de esgoto e chegando até o grande oceano, porque eles são muito mais leves do que areia e/ou lodo. A maior parte do que há nos aterros é entulho de construção e... papel. Isso mesmo, papel, papelão e afins - e dentre estes, os maiores vilões são os jornais, que são muito difíceis de apodrecer. Papel, embora frágil quando exposto a uma força mecânica, é extremamente resistente em condições adequadas. Ou você consegue pensar em outro motivo para papiros egípcios com 4 mil anos de idade? Longe do ar e da umidade, dispersores de bactérias decompositoras, eles podem durar milhares de anos. Em alguns aterros dos EUA ainda é possível desenterrar jornais da época da Grande Depressão, a 80 anos, perfeitamente legíveis.


Atol de Midway, no Pacífico.
O plástico não se compacta tão facilmente como outros tipos de lixo, e é facilmente transportável pelo vento. Assim, ele cai com facilidade de caminhões de lixo, vagões de trem, containers e todas as formas de transporte, além de voar ao vento até chegar aonde? Aonde? Héin, héin, héin!? Na água. É por isso que 80% de tudo que está boiando no mar hoje foi originalmente descartado em terra – e 90% disso é puro plástico.


A razão pela qual os aterros sanitários de hoje não estão entupidos de plástico é porque quase todo ele sempre acaba, de um jeito ou de outro, no oceano.


Só os EUA jogam fora 400 mil garrafas plásticas... por minuto.
Em 1995, um estudo da Academia Nacional de Ciências dos EUA estimou que todas as embarcações do mundo juntas produziam, só de lixo plástico, 4 mil toneladas anuais e só a frota mercante joga nos mares quase 640 mil embalagens de plástico DIARIAMENTE. Mas nem toda essa quantidade absurda se compara ao que é jogado nas praias, por pessoas porcas e mal-educadas que SABEM que estão sujando mas que, dentre outras desculpas, afirmam garantir o emprego dos garis municipais ou então têm preguiça de procurar uma lixeira ou "nojinho" de reter o lixo consigo até encontrar um local apropriado. Existem ainda aqueles que acham que plástico não polui porque – novamente – não tem aparência desagradável ou cheira mal.


E você deve (ou deveria) se perguntar: se todo esse plástico não apodrece e vai para o mar, onde ele está?


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A resposta está em vários lugares, mas a maior – e pior – encontra-se no oceano Pacífico, na altura das coordenadas 38°N 145°W. Oficialmente, esta área é conhecida como giro subtropical do oceano Pacífico norte, mas oceanógrafos, biólogos e navegadores já lhe deram um nome mais apropriado: Grande Mancha de Lixo do Pacífico. Trata-se de um lugar de confluência entre grandes correntes oceânicas, onde quase tudo que bóia pela costa oeste dos EUA chega, espiralando lenta e continuamente na direção de um monstro de lixo que se torna cada vez maior dia após dia. Ali tem de tudo: garrafas pet (e suas tampinhas), redes de pesca de nylon (e seus flutuadores de isopor), plásticos de embalagens de cerveja ou de alimentos em geral, hastes de cotonetes... enfim, todo o lixo que é despejado naquele lado do Pacífico. Todos os números relacionados são assustadores: o monte de lixo tem 2.200km de comprimento por 800km de largura, cobrindo a inacreditável área 1,76 milhão de km². Isto é maior do que toda a área do maior estado brasileiro, o Amazonas (1,57 milhão de km²). A marinha dos EUA calculou que devam existir ali nada menos que 03 milhões de toneladas de plástico, ou 5,1kg/km².
No centro do turbilhão, onde a pressão é maior, a camada de plástico chega a 10m de espessura em alguns locais.


Nesta figura estão marcadas as localizações dos 5 grandes giros oceânicos que se enchem de lixo dia após dia, bem como várias curiosidades a respeito do problema (clique para ampliar).


A mancha se comporta como um organismo vivo, mudando de forma e tamanho ao sabor das correntes marinhas. Contudo, esta nem é a pior notícia! Estes números gigantescos referem-se apenas e tão somente ao plástico VISÍVEL, que bóia na água. Uma quantidade impossível de ser mensurada acaba sendo "colonizada" por algas e cracas que as usam como substrato e que, com seu peso, fazem-na simplesmente afundar. E outra quantidade simplesmente se quebra em partículas tão pequenas que já não podem ser, nem vistas, nem medidas. Em uma estimativa, 35% de todo o lixo da área tem até 1mm de tamanho; 17% apenas 0,5mm e 10% conseguem ter míseros 0,3mm ou seja, apenas 38% de tudo que está lá é visível. E essa parte é quase totalmente composta por sacolas, garrafas (e suas tampinhas) e isopor. Naquela área, em uma proporção por peso, há mais plástico do que plâncton na superfície da água.


Mais precisamente, SEIS vezes mais plástico.


Isso é fichinha quando a mesma experiência é feita em fozes de rios e riachos de Los Angeles, quando tal proporção pode chegar a CEM vezes mais – e aumentando anualmente.


A mancha de lixo do litoral do Japão.
Contudo, não é certo colocar toda a culpa do lixo oceânico nos EUA. Na verdade, todos os oceanos do mundo têm giros similares ao do Pacífico norte, onde tudo que é levado pelas correntes acaba. Na costa do Japão, no mesmo oceano, há outro monte de lixo grande, embora não tanto, e crescendo dia após dia. No total, os oceanos do mundo têm 06 giros tropicais, e todos se enchendo de entulho. Obviamente que o giro do Pacífico norte é maior, afinal recebe todo o entulho flutuante da maior potência industrial do planeta, mas os outros não merecem atenção menor. Quase todo o lixo que chega ao litoral da Suécia provém da Inglaterra; mas os suecos devem se sentir vingados quando sabem que a maior parte do lixo marinho da Irlanda acaba nas praias inglesas.

Se você olhou aquela figura enorme lá em cima, percebeu que existe um giro chamado giro do oceano Atlântico sul. Agora me diga: qual a nação mais industrializada do Atlântico sul? Não é Angola, Gabão, Namíbia ou Camarões... é o Brasil. Sim, nosso país é o principal alimentador do lixo daquele giro. E sabe quem mora aqui? Você. O papelzinho de bala que você joga na rua (e admita, você joga), pequenino, indefeso, vai cair, seja pela chuva ou pelo vento, na rede de pluvial de esgotos, que vai invariavelmente acabar num rio, que sempre deságua no mar.

Água-viva presa em emaranhado de rede de pesca.
Ou mesmo a escovinha de dentes ultrapassada que você joga no lixo do banheiro. Ah sim, tem também o inofensivo fio dental, que você não sabia até agora que é feito de nylon ou do (impronunciável) politetrafluoretileno, que são plásticos. Some a isso todo aquele plástico que você, com toda sua consciência ambiental, separa bonitinho no lixo extra da cozinha. Não pense que, agindo assim, estará fazendo grande coisa não. É um começo, concordo, mas se o sistema de coleta e reciclagem de lixo de sua cidade não for devidamente adequado, todo seu "trabalho" vai adiantar de muito pouco pra não falar quase nada. Isso porque não são todos os tipos de plásticos que podem ser reciclados. A maior parte simplesmente vai pro lixão mesmo.
A mesma coisa essas campanhas de limpeza de praia. É isso mesmo. Elas são mais válidas para afagar nossas próprias consciências do que para de fato ajudar a livrar o mundo desta merda, porque se o plástico recolhido não for devidamente prensado, compactado e armazenado (ou até mesmo cremado), todo ele vai acabar retornando para o oceano.
É foda, pessoal... mas não dá pra ser ambientalmente correto vivendo numa sociedade industrial.


Existe ainda outra característica marcante dos plásticos que os tornam ainda mais terríveis: sua maldita facilidade de flutuar! E, como tudo sempre pode ficar pior, não é apenas o que já está no plástico que causa problemas. Segundo Hideshige Takada, da Universidade de Tóquio, uma gama enorme de toxinas flutuantes vindas dos mais variados tipos de fontes – papel de xerox, graxa automobilística, fluídos refrigerantes, lâmpadas fluorescentes e mais um monte de coisa – caem diretamente em rios que desaguam no mar, e se prendem rapidamente a qualquer resíduo plástico que lhes apareça pela frente. Ou seja, o plástico além de já ser ruim por si só, também age como ímã e/ou esponja para um montão de outros produtos tóxicos, como inseticidas (Aldrin, Dieldrin, Endrin, Mirex, heptacloro e toxafeno), fungicidas (hexaclorobenzeno), pesticidas (clordano e DDT), solventes (furano), lubrificantes (bifenilos) e produtos para clareamento de papel (dioxinas). Ufa! Que merda héin!?


Redes de pesca perdidas ficam vagando a esmo no mar, fazendo
a chamada "pesca fantasma": por não se degradarem, podem
ficar décadas a fio se emaranhando nos mais diversos animais.
Nem mesmo as gigantescas baleias escapam.
Mas tem mais! Até 1970, para deixar o plástico mais maleável era aplicado em sua fórmula o bifenil-policlorado (PCB), que provocava destruição hormonal em peixes e ursos polares, que nasciam com hermafroditismo. Desde aquele ano que a substância foi proibida e nunca mais foi usada, só que tudo que foi produzido até então ainda está na água e vai continuar por lá, excretando PCB no mar e continuando a fazê-lo por séculos e mais séculos.

E infectando todos os seres vivos com os quais tiver contato.  O mesmo professor Takada constatou que as partículas de plástico que os papagaios-do-mar concentram veneno em níveis até 1 MILHÃO de vezes maiores do que sua ocorrência normal na superfície do mar.


E não pense que são apenas as embalagens dos produtos... às vezes, são os próprios produtos! Faça o teste aí em sua casa. Pegue alguma coisa, geralmente de uso feminino, como cremes, cosméticos ou até mesmo a pasta de dentes. Todos eles têm uma coisa em comum: contém esfoliantes em suas fórmulas de composição. Até existem aqueles que são naturais, cujos grãos são de fato compostos por sementes trituradas, seja de uva, damasco, ou até açúcar mascavo e sal marinho, mas os outros... são todos plástico.


É claro que eles não vão colocar PLÁSTICO assim escancaradamente na descrição, mas se você tiver o "trabalho" de ler a descrição do que está comprando vai descobrir que vários dos produtos que você tem (e que são embalados em plástico) contém plástico. Principalmente polietileno. Claro, tudo em letrinhas beeeeem pequenas, quase nanométricas, para justamente te dar preguiça de ler. E isso quando eles têm a descrição. Existem produtos que são vendidos em caixas cuja única função é fazer você abrí-la e jogar fora, e é justamente lá que eles colocam a descrição. Muito espertinhos. Seja como for, todos os produtos de beleza e de limpeza corporal geralmente saem no banho – resumindo: sem ter a menor idéia você está mandando plástico pro ralo, que vai dar na rede de esgoto, que vai acabar... no oceano. No final das contas, novamente, todo esse plástico vai acabar no mar.


Uma pequena seleção que fiz aqui em casa mesmo, juntando produtos de higiene corporal, cosméticos e limpeza doméstica. Da esquerda pra direita:
xampus Johnson's Baby têm estireno e acrilato; esmaltes das marcas Dote Style, Hits e Colorama têm polietileno tereftalato; creme Natura TodoDia Bergamota tem dimetilconol; lenços umedecidos Luppy têm propileno; creme para pentear Dove Proteção Térmica tem dimetilacrilamida e carboxivinil; desodorante Monange tem propileno carbonato, isopropil e dimeticona; condicionador Niely Gold Extra Brilho tem dimeticona e metilanilopropil; condicionador Looney Toones tem dimeticonol; pasta de dente Colgate Smiles tem polietilenoglicol; Nivea Calm & Care tem ciclometicona, dimeticona e dicaprilil; silicone concentrado Niely Gold tem dimeticonol; desodorante Axe tem miristato de isopropilo; tônico equilibrante Higiporo da Davene tem propileno e polietilenoglicol; creme para mãos Avon Basics Luvas de Silicone tem gliceril-estearato e dimeticona; creme hidratante Midnight Mimosa Victoria's Secret tem propileno e dimeticona; loção hidratante Chá Verde Loção Hidratante tem propileno-glicol; creme para penter, Palmolive Kids tem dimeticona; spray facilitador Passe Confort tem acetato de polivinila; pasta de dentes Colgate Total 12 tem éter de polivinilmetila.
Apesar dos nomes complicados, é tudo plástico. E isso tudo são apenas os que eu tenho certeza que são polímeros e/ou que consegui ler nos rótulos diminutos que eles nos concedem - os rótulos de esmaltes, por exemplo, nem com a visão do Super-Homem se consegue ler. Tudo isso aí é plástico, e quase tudo está embalado em mais plástico. Ah sim, o móvel da pia também é todo feito de plástico - bem como tudo que está em cima dele. Nota importante: lá atrás, fazendo pose, está a lupa que eu tive que usar pra conseguir ler algumas descrições (como as dos já citados esmaltes).


Exceto por uma mínima quantidade que é reaproveitada ou incinerada, todo o plástico produzido nos últimos 70 anos, inteiro ou granulado... ainda existe. Está em algum lugar no ambiente.


Plástico encontrado no estômago da carcaça de um único jovem
albatroz-de-Laysan (Phoebastria immutabilis), coletado pela dr.
Cynthia Vanderlip, do Havaí. Link
No oceano, mais exatamente, que é onde acaba todo o plástico que nós jogamos fora, mesmo quando o fazemos no lixo. Agora pense: durante bilhões de anos a geologia do planeta cuida do processo de erosão de montanhas, reduzindo-as à areia, sais dissolvidos e outras partículas tão pequenas que podem ser levadas pelos rios até chegar nos oceanos, onde afundam e se assentam em seu assoalho para formar as próximas montanhas que a tectônica de placas formar num futuro humanamente inalcançável. O Amazonas faz isso com a cordilheira dos Andes a milhões de anos – a ilha de Marajó é quase toda composta por solo trazido dos Andes peruanos. Pois agora outro tipo de sedimento está sendo lançado ao mar pelos rios: plástico.
Se toda a produção mundial de plástico cessasse AGORA, tudo o que já foi produzido fará com que os organismos convivam com isso por um futuro indefinido. Muito mais do que milhares de anos.

Tartarugas também morrem aos milhares nas teias fantasmas...
E esta porcaria, devido a sua elasticidade, versatilidade para flutuar ou afundar, poder ficar "invisível" na água devido à transparência, além de durabilidade e resistência superior a qualquer material natural foram a razão pela qual, por exemplo, os fabricantes de redes de pesca preterissem as fibras naturais pelas sintéticas de plástico, como o nylon e o polietileno: com o tempo, as primeiras se desintegravam natural e inofensivamente; as sintéticas, mesmo quando perdidas por seus donos, continuam no oceano, fazendo "pesca fantasma", fazendo com que todas as espécies marinhas, mesmo as gigantes como a baleia-azul, estejam sempre em risco de ficar presas em emaranhados colossais de redes de pesca perdidos, vagando a esmo pelos oceanos. E isto já acontece com uma desagradabilíssima frequência: albatrozes, focas, tartarugas e golfinhos são sempre encontrados mortos, afogados, presos nestas porcarias resultantes da ação irresponsável de pessoas ignorantes.


Um estudo feito a partir de carcaças de gaivotas jogadas pela maré nas praias do Mar do Norte, na Inglaterra, constatou que havia plástico em 95% dos cadáveres, numa média assustadores de 44 peças para cada ave. Num homem, tal volume estomacal chegaria aos 2,3kg.


Obviamente não dava pra dizer que todas tinha morrido em decorrência do plástico engolido mas, em muitos casos, seus intestinos foram obstruídos pelo volume indigerível, resultando numa constipação fatal.

Se animais grandes como gaivotas e tartarugas estão comendo plástico (e morrendo), e se esse mesmo plástico está se quebrando em partículas menores, é de se considerar que o mesmo acabará entrando na cadeia alimentar de organismos também cada vez menores - especialmente detritívoros e/ou filtradores, como poliquetas e cracas. E quando se tornarem pequenos o suficiente, até o zooplâncton os consumirá.


Agora vocês digam que é "exagero" e "sensacionalismo" aquelas fotos de focas se enforcando em embalagens de cerveja, tartarugas deformadas por rodas de carrinhos de brinquedo, golfinhos afogados em redes perdidas, tartarugas sufocadas por sacos plásticos e gaivotas entupidas de toda sorte de detritos.


Mas uma boa idéia, já que não vamos parar nunca de fabricar plástico, seria a de acrescentar a eles aditivos que os enfraquecessem quando expostos ao sol e seus raios ultravioleta. Isto poderia, por exemplo, salvar a vida de muitos animais marinhos – embora não resolvesse o problema in totum, ao menos o amenizaria.


A merda é que o plástico pode até se fotodegradar, mas isto demora muito mais a acontecer quando o mesmo se encontra justamente na água. Quando em terra, ele absorve o calor das ondas solares infravermelhas e fica mais quente que o ar à sua volta. No mar, ele além de ser naturalmente resfriado pela água, ainda é protegida pela camada de algas e/ou cracas que se fixam nele.


Outro problema é que, mesmo que o plástico se fotodegrade, sua natureza química tóxica não vai mudar por casa disso por centenas, até milhares de anos. Assim, mamíferos e aves marinhas poderiam até ser salvas num primeiro momento, mas os resíduos tóxicos de sua degradação continuariam no oceano, sendo consumidos por organismos menores que seriam por sua vez caçados por outros maiores até chegar... nos mamíferos e aves marinhas. Ou seja, indiretamente, elas ainda seriam vítimas do plástico.


Plástico é sempre plástico. É sempre um polímero. O polietileno não é biodegradável numa escala praticável de tempo. Não existem mecanismos no ambiente marinho capazes de destruir uma molécula tão grande.


... assim como focas, leões-marinhos...
Hoje em dia a produção anual de plástico chega à casa das 180 milhões de toneladas, com uma crescente estimada 9% ao ano em decorrência da expansão de mercados consumidores gigantes, como Índia e China. Estima-se que a quantidade de plástico produzido nos 10 primeiros anos deste século se aproxima da quantidade total produzida em todo o século XX, e a produção total de todos os tempos já supera 1 bilhão de toneladas. Isso inclui centenas e centenas de tipos e subtipos diferentes, muitos com combinações desconhecidas envolvendo aditivos plastificantes, opacificadores, pigmentos, esfoliantes, estabilizadores e outras porcarias para enchimento ou enrijecimento. A durabilidade de cada um varia enormemente, fazendo com que sua longevidade seja simplesmente desconhecida. Até agora, nenhuma variedade desapareceu.


E não se engane quanto às embalagens "biodegradáveis"... isto simplesmente não existe! A grande maioria não passa de uma simples mistura de plástico com celulose. Depois que o amido se quebra, tudo que sobra... é plástico, tão normal quanto o de qualquer outra embalagem.


... e até mesmo crocodilos marinhos!
É verdade que a biotecnologia já está conseguindo produzir uma gama até razoavelmente variada de plásticos verdadeiramente biodegradáveis – viu só? Os biotecnólogos isolados do mundo também conseguem criar coisas boas além de lucrativas. O biopropanodiol, da Dupont, é feito com o açúcar do milho, e já existe também uma série de biopolímeros feitos a partir de bactérias geneticamente modificadas, como o polilactato (PLA), polihidroxialcanoato (PHA), polímeros de amido (PA) e as xantanas (Xan). O biopropanodiol tem a vantagem que os fabricantes mais desejam: economia. Sua produção consome até 40% menos energia do que o plástico convencional. E é apenas e tão somente por causa da oscilação do preço do petróleo (e a possibilidade do fim de seu uso) é que estas novas alternativas apareceram. Ou você acredita que haja realmente alguma preocupação ambiental nisso? Tirando os criadores e produtores do plástico, ninguém se toca de que o mesmo é um derivado do petróleo, e que as reservas do mesmo estão começando a ficar mais escassas e difíceis de encontrar, uma das principais razões pelas quais seu preço também dispara no mercado mundial.


Mas não parece ser muito provável que eles e outros que sejam fabricados seguindo o mesmo princípio substituam o plástico original feito a partir do petróleo. Por exemplo, se a ideia é embalar comida, não parece ser muito inteligente fazê-lo com um material que encoraja as bactérias a comê-lo.


Aqui cabem dois pontos interessantes: 1) parece haver mais empenho em se criar uma bactéria que produza plástico “natural” do que em uma que destrua o plástico artificial; e 2) parar de produzir plástico a partir de hidrocarbonetos é uma alternativa, mas ainda precisamos pensar em todo o plástico já produzido que ainda se encontra no meio-ambiente. Reaproveitá-lo ou ao menos livrar o mundo natural dele, compactando-o em locais específicos para este fim.


Estão percebendo o tamanho da sinuca de bico na qual nos enfiamos? Criamos e passamos a depender totalmente de uma substância absolutamente volátil e poluente, para a qual simplesmente não existe uma forma eficaz de substituição. Talvez seja a hora de começarmos a considerar o plástico como um lixo diferente dos demais, assim como já sabemos que o são as baterias de nossos celulares e as pilhas comuns.


Depois de tudo isso, você pensa: será que algum dia o plástico terá fim?


Leão-marinho estrangulado por rede de nylon.
É bem provável até que sim, mas não numa escala aceitável de tempo. Centenas de milhares de anos, no mínimo. Isso é tempo mais do que suficiente para ocorrer fossilização. Só que não temos a mínima idéia de como um plástico poderia fossilizar-se. Como ele, no início de tudo, é sempre um derivado do petróleo natural, poderia se decompor novamente em hidrocarbonetos que poderiam formar uma gigantesca planície de plástico onde, milhões de anos no futuro, ainda seria perfeitamente possível discernir cabeças de Barbie ou garrafas bojudas de Coca-Cola, ou aglomerados específicos, formados por hastes de cotonetes ou escovas de dente, ou ainda gigantescos montes de nylon das redes de pesca do nosso tempo, gravados nas grandes placas de plástico tal qual moldes de ossos de dinossauros nas rochas do Cretáceo.


Mas um dia, como todo bom hidrocarboneto (= derivado de petróleo), o plástico vai se degradar. O problema é que isto se dará numa escala de tempo tão grande que poucos serão os efeitos práticos se não pararmos de produzí-lo. Todavia, se ele não pode se biodegradar em um período satisfatório, poderá quem sabe fotodegradar num tempo até razoável.

Isto porque, quando hidrocarbonetos se degradam, suas moléculas poliméricas se desmontam nos componentes originalmente combinados para criá-las: dióxido de carbono e água. Mas quando se fotodegradam, a radiação ultravioleta do sol enfraquece a resistência do plástico à tensão, quebrando as moléculas longas e, já que a resistência do plástico depende do comprimento de suas cadeias moleculares, quando os raios UV as quebram, ele finalmente começa a se decompor.


Um exemplo disso são as embalagens que ficam muito tempo em ambiente iluminado pelo sol. Após um tempo, elas começam a amarelar e mesmo a se quebrar sobre si mesmas, quando as tentamos erguer. Geralmente isso acontece com recipientes de polietileno. Os fabricantes sabem disso, e frequentemente adicionam à fórmula do plástico aditivos químicos para torná-lo mais resistente aos raios ultravioleta.


Mas vamos lá, pensemos positivo. Digamos que tudo isso funcionasse perfeitamente, que conseguíssemos encontrar um substituto barato, farto, eficiente e inofensivo (puts, quantas exigências!) e que a humanidade nunca mais produzisse um único nurdle sequer... por quanto tempo nós ou o planeta ainda teria de conviver com o plástico já existente?

Vejam bem, as pirâmides do Egito preservaram por 4 mil anos papel, sementes e até partes humanas, como cabelos, porque foram eficientemente seladas para impedir a entrada de luz solar, além de não renovar o ar (= pouco oxigênio) e praticamente não ter umidade. Nossos depósitos de lixo são similares nesse sentido: o plástico soterrado sobre metros e mais metros de lixo se encontram em condições semelhantes, e assim, vão permanecer por muitos e muitos milhares de anos. Outro ambiente bastante parecido é o fundo do mar. Se todo o plástico que afunda é recoberto por sedimentação e está num ambiente sem luz e com pouquíssimo oxigênio, além de extremamente frio, pode ficar lá para sempre.


Este tipo de atitude é extremamente válido, mas se não houver o
devido cuidado após o recolhimento, ano que vem eles estarão
recolhendo exatamente as mesmas peças de plástico.
Entrementes, temos de considerar que ainda não conhecemos satisfatoriamente a microbiologia das regiões oceânicas abissais. É perfeitamente possível que existam por lá bactérias anaeróbias capazes de destruir plástico. Não é impossível, mas altamente improvável, e ninguém nunca conseguiu nenhuma evidência a respeito até hoje. Ainda assim, espera-se uma degradação muito, muito mais lenta no fundo do mar do que na superfície da terra.

Levou muuuuuito tempo para que os micróbios aprendessem a quebrar hidrocarbonetos naturais em suas partes componentes, quando apareceram as primeiras plantas capazes de produzir lignina e celulose. E olha que, molecularmente falando, a lignina é bem mais complexa do que o plástico. Mais recentemente, elas aprenderam até a comer óleo. Mas agora elas têm de lidar com hidrocarbonetos artificiais, aditivados por outras substâncias igualmente artificiais e além de tudo tóxicas, e convenhamos, 70 anos é muito pouco para que desenvolvam o aparato bioquímico necessário para atingirem esse objetivo.


Mas, mesmo que não façamos idéia de quando, um dia mesmo o plástico mais resistente... desaparecerá. Mesmo que os microorganismos jamais consigam degradá-lo, não esqueçamos que, além do tempo biológico, também temos o tempo geológico. Mesmo todo o plástico flutuante uma hora acabará recoberto por algas, cracas ou colônias bacterianas que o farão afundar. A tectônica de placas invariavelmente os levará a camadas mais profundas, onde as alterações de relevo e pressão acabarão transformando-o em outra coisa. As gigantescas florestas do Carbonífero passaram por esse processo, e é graças a ele que hoje temos carvão e petróleo. Foi a geologia, e não a biologia, que fizeram-nas passar por esta transformação. É até mesmo possível que, com o tempo geológico correto, nenhum indício de plástico sequer sobre para contar a história.


Será que, no fim, não será nossa inteligência, mas sim a biologia e a geologia que resolverão o problema? É esperar pra ver.



Também retirei MUITO (e excelente) material do fabuloso livro O Mundo sem Nós (Ed. Planeta do Brasil, 2007), de Alan Weisman.