quinta-feira, 9 de junho de 2011

A Primeira Grande Tragédia

Compartilhar o mundo nunca foi uma das maiores proezas humanas.

Destruí-lo, sim.




Os magníficos animais acima não existem mais a milênios. São apenas alguns dos muitos representantes da chamada megafauna do Pleistoceno e dos quais hoje só temos fósseis. Você vai ver outros no decorrer desta postagem.

Existem algumas explicações para seu sumiço, mas a mais válida e carente de refutações contrárias aponta para um único responsável: o homem.
É exatamente por este motivo que esta extinção se difere de todas as outras anteriores. Pela primeira vez na história da vida na Terra uma espécie, e não um evento geológico/climático/cósmico, foi responsável por um evento de extinção em massa.

Mas como se pode afirmar que foi o homem o responsável por esse massacre? A melhor das teorias a respeito foi proposta pelo paleoecologista americano Paul Martin, que em 1967 elaborou uma tese complexa e muito bem fundamentada que joga NO HOMEM a culpa pela catástrofe animal na América do Norte. Coincidindo com as possibilidades a respeito da entrada do homem no continente, a aproximadamente 13 mil anos, iniciou-se um processo arrasador de extinções que, até o começo do seguinte e atual Holoceno, já tinha exterminado mais de 40 gêneros de grandes animais (a maioria mamíferos): mamutes, mastodontes e várias outras espécies de elefantes, preguiças gigantes, ursos gigantes, leões gigantes, camelos, antas, alces, tigres dentes-de-sabre, mais de 20 espécies de cavalos e diversas outras de cervídeos e antilocapras... enfim, mais de 60 espécies de grandes mamíferos que à época sumiram quase que instantaneamente.

Paul Martin: "Quando a humanidade deixou
a África e a Ásia e alcançou outras partes do
mundo, o inferno se desencadeou
".



Mesmo quando a humanidade ainda se resumia ao simples e diminuto Homo erectus já tinha a capacidade de fabricar machados e cutelos rudimentares. Mas na época em que alcançaram a América, 13 mil anos atrás, já eram Homo sapiens a pelo menos 50 mil anos. Com seus cérebros gigantes e milênios de aprendizado de sobrevivência e estratégias de caça, entraram aqui detonando com tudo. Um bom exemplo é o povo de Clovis que, segundo datações, chegou à América do Norte a 13.320 anos. O que comprova que eram caçadores é a presença, em seus sítios arqueológicos, de ossos de mamutes e mastodontes com marcas de lanças. Além disso, análises bioquímicas comprovaram que suas pontas de lança foram usadas em cavalos e camelos.


Sua teoria é bastante contestada, mas também tem defensores, que acrescentam ainda que o homem não apenas pode ter caçado esses animais até a total extinção, como também lhes transmitido doenças às quais eles não eram imunes. Também cogita-se que o domínio do fogo contribuiu, alterando o habitat original de tal forma que os animais não conseguiram se adaptar.



A principal questão levantada por seus detratores é o fato de não se saber exatamente em que momento – nem por onde – o homem invadiu o continente. Algumas pesquisas sugerem que ele tenha chegado mais cedo, até à 14 mil anos atrás, e isso em se tratando de América do Norte. Na América do Sul a coisa pode ter sido ainda mais antiga, com a migração de polinésios via mar até a parte meridional do continente. Existe um sítio arqueológico humano no Chile, Monte Verde, que tem 14.800 anos. Mas foi em Minas Gerais que foi encontrado o fóssil humano mais antigo da América, Luzia, com idade calculada em 11.400 anos. Ou seja, podem ter havido várias correntes migratórias humanas à América no decorrer do tempo. Nota: em Monte Verde foram encontrados ossos de mastodonte e diversos pedaços inacreditavelmente bem preservados de couro e até carne de caça, o que mostra que aquele povo não era apenas coletor, mas também matava animais.

Pontas de lança do povo de Clovis, da América do Norte.

Outra tentativa de refutar a teoria é baseada nos modelos predador-presa, que demonstram ser pouco provável que predadores cacem suas presas à extinção, pois precisam das mesmas sempre disponíveis como alimento. Contudo, o homem tem maior variedade de dieta do que qualquer outro animal e é perfeitamente capaz de mudar para presas alternativas ou até mesmo alimentos de origem vegetal, quando a caça se torna rara – MAS NÃO O FAZ. O ser humano indiscutivelmente caçou inúmeras espécies até a total extinção, temos diversos exemplos bem documentados (e muitas vezes não por alimentação, mas por comércio, esporte, falta do que fazer, vontade de dar o rabo e etc). Estamos fazendo isso até hoje, o que torna qualquer argumento a respeito de os predadores não poderem caçar presas à extinção inválido. A culpa é nossa mesmo, não tem jeito.


Embora o gelo possa também ser culpado, acreditando-se que a mudança climática provocada pelo desaparecimento das geleiras e o subsequente aquecimento e ressecamento do planeta levaram à mudanças na paisagem que condenaram muitos animais totalmente adaptados ao frio à extinção, há de se levar em conta que animais não são plantas: podem se deslocar. Sítios arqueológicos europeus comprovam que o homem (tanto o H. sapiens como o H. neanderthalensis) se deslocava para o norte e para o sul de acordo com o avanço e recuo das geleiras. É totalmente razoável pensar que grandes animais – principalmente mamíferos, mais inteligentes – também fizessem o mesmo. Além do mais, a teoria da mudança climática atestaria para um evento global, e é sabido que as megafaunas africana e asiática foram pouco afetadas ao final da última glaciação. Também há o fato de que, em ilhas consideradas longe o suficiente do território recém-ocupado e que escaparam à colonização humana imediata, as espécies da megafauna por vezes sobreviveram por muitos milhares de anos depois de terem sido extintas no continente: exemplos incluem cangurus gigantes na Tasmânia, diversas espécies de preguiças gigantes nas Antilhas, as vacas marinhas de Steller ao largo das ilhas Commander, mamutes anões nas ilhas de Wrangel e Saint Paul, hipopótamos e elefantes anões em diversas ilhas do Mar Mediterrâneo e as outrora quase onipresentes tartarugas gigantes, presentes nas Ilhas Galápagos (anteriormente também na América do Sul), Seychelles (anteriormente também em Madagascar), Nova Caledônia e Lord Howe.


Outra teoria, já caída por terra, apontava o evento conhecido como Grande Intercâmbio Americano como o responsável pelo aniquilamento de muitas espécies sul-americanas. O que ocorreu, na verdade, foi sua migração para o norte – o mesmo ocorrendo no sentido contrário – quando a faixa de terra que hoje forma o Panamá emergiu do leito oceânico e uniu as duas partes da América numa só. Para cá vieram elefantes, cervídeos, canídeos e felídeos, camelos e lhamas, antas e cavalos, roedores e lagomorfos dentre outros; para lá, foram preguiças gigantes, tatus gigantes, aves ratitas, capivaras, araras e peixes de água doce. É claro que houve extinções com a introdução de novos elementos nos dois ambientes, mas alguns animais, embora extintos em seu terreno original, prosperaram no novo ambiente, como é o caso da anta na América do Sul. E, mesmo após a chegada dos humanos, a razão pela qual a maior parte dos grandes mamíferos conseguiu sobreviver na América do Sul (e não há exemplos do padrão oposto) pode ter sido a densa floresta tropical da bacia amazônica e os altos picos dos Andes, que ofereceram um grau extra de proteção contra a predação do homem.
Todavia, isto foi a 3 milhões de anos... muito antes, portanto, do surgimento da própria humanidade moderna.

Contudo, a coisa começou bem antes e bem longe dali, no sudeste asiático, portal de entrada para a Austrália. Quando o homem a alcançou, 48 mil anos atrás, o surto de extinções começou imediatamente. O massacre lá foi tamanho que, dos 16 gêneros de grandes animais que existiam, apenas 01, Macropus (das atuais espécies de cangurus), sobreviveu.  Em alguns lugares da Austrália existem verdadeiros campos de ossos, como em Wairau Bar, onde o chão está repleto de ossos de moa, com uma estimativa de 9 mil indivíduos e 2.400 ovos. Em Waitaki Mouth existem restos de um número estimado de 30 a 90 mil moas. É bastante confiável afirmar que a causa foi direta ou indiretamente humana pois a Austrália não sofreu tanto com as geleiras da última glaciação, por exemplo.

Histórico da ocupação humana mundial. Quanto mais
longe, maior a matança.

Se o homem nunca tivesse evoluído, ou ao menos nunca tivesse aparecido por aqui, a América do Norte teria pelo menos 03 vezes mais animais com peso superior a 500kg do que a África hoje – com seus elefantes, hipopótamos, girafas e rinocerontes brancos e negros – e 05 vezes mais exemplares de grandes mamíferos. O continente africano, por sinal, manteve-se mais intacto, mesmo sendo o berço da humanidade e tendo que evoluir com ela a mais tempo.
África e Ásia ao sul, aliás, são as únicas regiões do planeta que ainda possuem mamíferos gigantes, com mais de 1 tonelada de peso. Na América, apenas o bisão norte-americano ultrapassa tal peso. De uma forma geral, a região dos trópicos manteve-se relativamente intacta, embora algumas espécies também desapareceram nessas áreas sem deixar substitutos comparáveis. Também neste caso, ao menos alguns desses sumiços foram culpa do homem.

Não fosse a invasão humana às ilhas do Mediterrâneo ainda teríamos elefantes
pigmeus do tamanho de cisnes vagando por Chipre, Sicília, Creta e Malta...

... assim como ainda veríamos o monstruoso Megalania caçando
moas gigantes, se o homem não tivesse chegado à Oceania.





Mas por que a megafauna africana foi preservada, enquanto a de outros continentes quase desapareceu por completo? Existem algumas boas explicações para isso. Pra começar, a África é o berço da humanidade. Homem e animal cresceram juntos, e estes logo se aperceberam do que aquele primata bípede era capaz. Desta forma, já sabiam que se tratava de uma ameaça. Ao mesmo tempo, ao deixar sua terra natal, a espécie humana teve que se adaptar à diversas novas condições ambientais mundo afora, como o gelo da Europa por exemplo. Isto a obrigou a capacitar-se, fazendo-a tornar-se mais inteligente, o que também a levou a desenvolver sua tecnologia – e suas armas. Conforme ia avançando para o leste, o homem aperfeiçoou-se a tal ponto que, quando chegou à América, último panteão intocado da vida selvagem no mundo, já era um caçador eficiente e letal.
Junte a isto o fato de que os gigantes norte-americanos, quando viram aquela criatura nanica de duas pernas com aparência tão frágil, não encontraram nenhuma razão para temê-lo. E isto decretou seu fim – quando perceberam, já era tarde demais. Mais de 70% das grandes espécies norte-americanas de mamíferos desapareceram no período de mil anos após a chegada dos primeiros seres humanos na América.


Mas por que a megafauna africana foi preservada, enquanto a de outros continentes quase desapareceu por completo? Existem algumas boas explicações para isso. Pra começar, a África é o berço da humanidade. Homem e animal cresceram juntos, e estes logo se aperceberam do que aquele primata bípede era capaz. Desta forma, já sabiam que se tratava de uma ameaça. Ao mesmo tempo, ao deixar sua terra natal, a espécie humana teve que se adaptar à diversas novas condições ambientais mundo afora, como o gelo da Europa por exemplo. Isto a obrigou a capacitar-se, fazendo-a tornar-se mais inteligente, o que também a levou a desenvolver sua tecnologia – e suas armas. Conforme ia avançando para o leste, o homem aperfeiçoou-se a tal ponto que, quando chegou à América, último panteão intocado da vida selvagem no mundo, já era um caçador eficiente e letal.
Junte a isto o fato de que os gigantes norte-americanos, quando viram aquela criatura nanica de duas pernas com aparência tão frágil, não encontraram nenhuma razão para temê-lo. E isto decretou seu fim – quando perceberam, já era tarde demais. Mais de 70% das grandes espécies norte-americanas de mamíferos desapareceram no período de 1000 anos após a chegada dos primeiros seres humanos na América.

E isso em se tratando apenas de América do Norte. A extinção ocorreu em escala mundial.


Na África, apenas 02 de 44 gêneros foram extintos (4,5%); a Europa já sofreu um pouco mais, perdendo 07 de 23 (30%), as Américas foram as que mais perderam em quantidade, com 79 de 103 gêneros exterminados (77%); mas em porcentagem, foi a Oceania que, com o sumiço de 15 de 16 gêneros (94%), foi o continente mais arrasado de todos.
A variedade de espécies exterminadas surpreende pela beleza dos animais – e pela tristeza de sua perda. Teríamos ursos, elefantes, cavalos, camelos e tantos outros animais na América do Sul (vale lembrar que os cavalos atuais foram trazidos pelos navegadores europeus); nas ilhas do Mediterrâneo ainda haveriam várias espécies de hipopótamos e elefantes anões e, na Nova Zelândia, se os polinésios não tivessem chegado a aprox. 2.000 anos, ainda viveriam as fantásticas moas gigantes; a ilha de Madagascar, a leste da costa africana, possuía – e ainda possui – uma das faunas mais fantásticas do planeta. Quando o homem apareceu, também a 2.000 anos, quase toda a megafauna da ilha foi destruída, incluindo 08 espécies da maior ave de todos os tempos, a ave-elefante (Aepyornis), 17 espécies de lêmures primitivos, 03 espécies de hipopótamos, 02 espécies de porco-formigueiro, tartarugas gigantes e etc.
Muitas espécies foram extintas quando os seres humanos atravessaram o Pacífico, a partir de 30.000 anos atrás, no arquipélagos de Bismarck e Ilhas Salomão. Estima-se atualmente que, dentre as espécies de aves do Pacífico, cerca de 2.000 espécies foram extintas desde a chegada dos seres humanos.

A fauna continental foi arrasada conforme a humanidade avançava pelo planeta. Mas ilhas mais distantes e isoladas permaneceram incólumes por séculos, até milênios a fio... até que – sempre ele – o homem dominou a navegação, isso a uns 500 anos. Foi o início da segunda leva de destruição em escala mundial da vida animal. Várias espécies de tartarugas gigantes e outras tantas de aves desapareceram, incluindo o famoso dodô das Ilhas Maurício e o solitário das Ilhas Rodrigues. Mas esta fica para a próxima postagem.

E o pior de tudo é que aquelas extinções mais antigas causam prejuízos ao planeta até hoje! Quando uma espécie se vai, leva consigo outras (e não são poucas) que dependiam dela para sobreviver, no que é conhecido por anacronismo biológico. O meio ambiente sente falta desses organismos até hoje. É CLAAAAARO que ele pode se recuperar  como sempre o fez mas, em tempo geológico, 10.000 anos não é nada, não é suficiente.

Ainda veríamos preguiças colossais nos campos sul-americanos...
... e aves titânicas assombrando as pradarias da América do Norte.

Paul Martin defende que, como solução, sejam "importados" animais atuais, similares aos que foram exterminados, para reocupar esses nichos ecológicos, numa estratégia chamada "ressurreição ecológica": leões e elefantes africanos seriam colocados nos parques nacionais americanos para tentar restabelecer o equilíbrio, cumprindo o papel de seus parentes extintos. É polêmico? Muito, mas o homem fez – e faz – coisa muito mais polêmica que isso e ninguém dá muita importância.

Provavelmente nem você, que está lendo isso agora.

Pra finalizar, quero dizer que estas espécies que apareceram aqui primeiro foram extintas, depois identificadas. Mas, ao invés de nos lamentarmos, deveríamos nos preocupar com as que estão sendo extintas sem nem mesmo sabermos de sua existência. Sim, está acontecendo nos dias atuais, neste exato momento (veja AQUI).

E os links de hoje são esses:


A maioria das ilustrações foi compilada a partir de imagens retiradas do excelente site Habitantes do Mundo Antigo (em japonês).

Também não posso deixar de indicar o fabuloso livro O Mundo sem Nós (Ed. Planeta do Brasil, 2007), de Alan Weisman.

10 comentários:

  1. Excelente artigo. Muito bem escrito e pesquisado. Salvei as imagens das comparações dos animais com humanos. São simplesmente fantásticos esses animais que infelizmente não vemos mais.

    Elefantes na Europa e continente americano, preguiças do tamanho de casas, aves que fariam o avestruzes parecerem pequenos... Tudo isso o mundo teria se não fosse o homem. Algumas espécies se extinguiram por pura maldade, como o dodô. Senti falta do leão-do-Atlas, o maior leão do mundo, extinto na natureza apesar de existir ainda em cativeiros.

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  2. Muito interessante o seu texto. A culpa de tudo isso é realmente do homem.

    Parabéns.

    Márcio Conceição de Santana
    Monte Alegre de Sergipe-Se

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  3. O Homo Sapiens pode ter alguma culpa, mas o Neanderthalensis se foi junto com a Mega Fauna.

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  4. Agora só falta alguém dizer que esses animais não foram extintos pelo homem, eles apenas chegaram atrasados na arca de noé e morreram todos ao mesmo tempo no diluvio biblico, haushaushasua, santo Thor.

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    1. Se tiverem evidências (e tem), podem dizer. Senão será uma tirania do ateísmo. Aliás, geralmente, percebo que muitos ateus, quando não têm evidências para defender a não existência de Deus, retaliam o que defende a existência com zombarias e não com a razão ou a lógica.

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  5. Mi tierra se esta apagando.. Siento el olor contaminante..La tierra me la han saqueado.. En manos de esos de guante..Aquellos que han conquistados, con sus armas a mis andantes...Sangre en la tierra han dejado.. Matando a mis caminantes..Mi tierra se esta agotando de aquellos inconscientes..Sin ve lo que están dejando: Destrucción en el ambiente..Ademas que nos han saqueado.. Trayendo mil pestes andantes..Dicen que le andamos debiendo..Si hasta da penas, mi caminante..

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  6. Agora só falta defenderem a extinção humana . DUH

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  7. Falta nada, já fiz isso! :D

    http://outrasverdadesinconvenientes.blogspot.com.br/2011/02/superpopulacao-pt-02-solucao_26.html

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  8. isso me lembra de um documento antigo: "Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, con­for­me a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais ­que se movem rente ao chão".

    Isso aumenta a minha fé!

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  9. marcelo vc.tem uma hemorroida no lugar do cérebro!!!

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